
Tudo que tenho pra expressar sobre Bergman é pouco, pois fui mais apreciador de seus admiradores (especialmente Woody Allen). Mas não esqueço de um evento causado por ele, que mudou minha percepção do mundo.
Como devem imaginar, sou dessa geração 70/80, catequizada, condicionada a gostar de tudo que é da "esquerda" ou "socialista". Além disso, acredito que a minha geração tenha sido a primeira a saber sobre cinema (ou melhor, ter essa arrogância,pretensão) não pelo cinema, mas majoritariamente pela TV. Até os anos 70 a maioria das pessoas assistiam filmes no cinema, e poucas pessoas tinham tv, e a própria TV brasileira não transmitia tanto filme, até porque o cinema era barato até então, e assistir "Reis dos Reis" numa telinha em P&B seria no mínimo burrice nesses idos. Já quem nasceu nos anos 70 passou a ver filme em casa direto, mais que seus pais e avós, e ir ao cinema passou a ser um evento mais social, ou cultural quando você não queria engolir "enlatados de faroeste". Sei que até os 16 anos ví mais filmes por tv doque por outras mídias (nem falar de videocassete, por favor...).
O mau de ser educado pela TV em cinema, ainda mais uma TV saindo da ditadura, é que existe a obrigação de apreciar muita velharia, mesmo que de qualidde (como os musicais e os épicos). E é tudo made in USA. Eu era doido pra pegar um ônibus e conhecer o Brooklyn, o Harllen. Eu queria tanto dar um pulo na Madison Square Garden! Queria saber que barca eu pegava pra conhecer New York. Cês não imaginam a decepção geopolítica e geocultural criada pelo cinema na minha cabeça.
Ainda acho que é muito diferente falar de cinema com quem tem menos de 40 anos. Taí: quem te menos de 40 anos possui o vício de falar de filmes, e os com mais de 40 têm mais facilidade de falar de cinema. Não pelo que assitiram, mas como assistiram. Eu assisti Ben Hur diversas vezes, mas minha mãe saiu de Queimados nos anos 60 pra assisti-lo no cinema Olinda, na Tijuca, na maior sala de cinema do estado na época. Tira onda até hoje com isso. É outra coisa...
Mas o que interessa é que no inicio dos nos 80 algumas emissoras procuravam ganhar audiência exibindo filmes que foram degolados pela censura, mesmo que fossem obras inofensivas, no que diz respeito aos teores ideológicos, só por conter sexo, saliva ou mucosas demais. Meus pais não puderam ir ao cinema assitir "O último Tango em Paris" uns 10 anos antes, e lá estava eu no sofá com eles, assistindo esse filme com eles na TV! E da-lhe Carlos Saura, Passolini, Bergman, etc.
Certa noite foi anunciado "Sonata de Outono". Eu me lembro de ter ficado hipnotizado pelo modo como aquele filme era diferente. Muito diferente. Os filmes franceses e italianos, preservando algumas coerências, me lembravam o filme brasileiro (mais nas deficiências técnicas que nas virtudes). Mas um filme de um suéco rolando na Noruéga, com um ritmo tão diferente, com uma lógica de "organizar" as imagens tão diferente, me chamou atenção. Só "Ran", do Kurosawa, tinha atingido minha mente daquele jeito, até então. Logicamente, eu não poderia digerir o que era. Minha mente periférica apenas disparou : "Que merda é essa de ver filme na televisão? Vou parar com isso!! A tv não tem a menor sensibilidade ou respeito com os filmes, especialmente quando eles prestam. Filme é filme, cinema é cinema!" Esse chilique meio esnobe, essa indignação meio precária, foi o bastante pra perceber que havia algo além de filme pra divertir. Uma heresia até então para um cara como eu, que até hoje se apruma todo pra ir ao cinema ver "Transformers". Mas foi necessário perceber que o mundo é muito maior, e nem de longe pode ser reproduzido por uma Hollywood. E que a existência humana (com sua mediocridade, sua graça, sua vitalidade) pode ser sugerida em uma película.
Obrigado, Bergman, por ter me mostrado o papel do cinema, como arte, como algo que pode ir além do discurso, pode ser literário e eterno como um "Ulisses". Pode ser filosófico, pode ser humano. E pode estar acima das boçalidades ideológicas desses três últimos séculos. Obrigado por não ter se mudado para Los Angeles, mas ter preservado uma rotina da casa pro teatro, do teatro pra casa. Agradeço por não ter virado celebridade e nem figura excêntrica, mas simplesmente ter continuado com seus programas de Tv, algumas peças, e tal. Obrigado por não se tornar uma celebridade, a ponto de muitos acharem que você já estivesse morto há decadas. Apesar de sua obra ser tão pessoal ( ou justamente por isso) você não fez de sua obra um passe para uma vida aristocrática no Show Business. Celebridade, no sentido perjorativo que possue hoje em dia, não se encaixa no seu histórico, e ainda bem.
E obrigado, por fim, por ter feito uma obra que não é isenta ou alienada, mas simplesmente uma obra que ninguém conseguiu sequestrar ideológicamente. Tentaram, mas ninguém pode engavetar suas obras em nenhuma inclinação política, ou um movimento cultural besta qualquer. não é bolchevich, não é hippie, não é punk, não é "muderno", não é nenhuma porra dessas. É Bergman.
Foi Kurosawa, foi Kubrick, e agora Bergman. Acabou! Quero ver quem, nesse momento de luto, me aponte um diretor que fará de sua morte alguma perda significativa como no caso desses três. E não me venham com Speilberg!!!!
E não posso me esquecer: obrigado por Liv Ullmann. Sempre me amarrei nela.
O mau de ser educado pela TV em cinema, ainda mais uma TV saindo da ditadura, é que existe a obrigação de apreciar muita velharia, mesmo que de qualidde (como os musicais e os épicos). E é tudo made in USA. Eu era doido pra pegar um ônibus e conhecer o Brooklyn, o Harllen. Eu queria tanto dar um pulo na Madison Square Garden! Queria saber que barca eu pegava pra conhecer New York. Cês não imaginam a decepção geopolítica e geocultural criada pelo cinema na minha cabeça.
Ainda acho que é muito diferente falar de cinema com quem tem menos de 40 anos. Taí: quem te menos de 40 anos possui o vício de falar de filmes, e os com mais de 40 têm mais facilidade de falar de cinema. Não pelo que assitiram, mas como assistiram. Eu assisti Ben Hur diversas vezes, mas minha mãe saiu de Queimados nos anos 60 pra assisti-lo no cinema Olinda, na Tijuca, na maior sala de cinema do estado na época. Tira onda até hoje com isso. É outra coisa...
Mas o que interessa é que no inicio dos nos 80 algumas emissoras procuravam ganhar audiência exibindo filmes que foram degolados pela censura, mesmo que fossem obras inofensivas, no que diz respeito aos teores ideológicos, só por conter sexo, saliva ou mucosas demais. Meus pais não puderam ir ao cinema assitir "O último Tango em Paris" uns 10 anos antes, e lá estava eu no sofá com eles, assistindo esse filme com eles na TV! E da-lhe Carlos Saura, Passolini, Bergman, etc.
Certa noite foi anunciado "Sonata de Outono". Eu me lembro de ter ficado hipnotizado pelo modo como aquele filme era diferente. Muito diferente. Os filmes franceses e italianos, preservando algumas coerências, me lembravam o filme brasileiro (mais nas deficiências técnicas que nas virtudes). Mas um filme de um suéco rolando na Noruéga, com um ritmo tão diferente, com uma lógica de "organizar" as imagens tão diferente, me chamou atenção. Só "Ran", do Kurosawa, tinha atingido minha mente daquele jeito, até então. Logicamente, eu não poderia digerir o que era. Minha mente periférica apenas disparou : "Que merda é essa de ver filme na televisão? Vou parar com isso!! A tv não tem a menor sensibilidade ou respeito com os filmes, especialmente quando eles prestam. Filme é filme, cinema é cinema!" Esse chilique meio esnobe, essa indignação meio precária, foi o bastante pra perceber que havia algo além de filme pra divertir. Uma heresia até então para um cara como eu, que até hoje se apruma todo pra ir ao cinema ver "Transformers". Mas foi necessário perceber que o mundo é muito maior, e nem de longe pode ser reproduzido por uma Hollywood. E que a existência humana (com sua mediocridade, sua graça, sua vitalidade) pode ser sugerida em uma película.
Obrigado, Bergman, por ter me mostrado o papel do cinema, como arte, como algo que pode ir além do discurso, pode ser literário e eterno como um "Ulisses". Pode ser filosófico, pode ser humano. E pode estar acima das boçalidades ideológicas desses três últimos séculos. Obrigado por não ter se mudado para Los Angeles, mas ter preservado uma rotina da casa pro teatro, do teatro pra casa. Agradeço por não ter virado celebridade e nem figura excêntrica, mas simplesmente ter continuado com seus programas de Tv, algumas peças, e tal. Obrigado por não se tornar uma celebridade, a ponto de muitos acharem que você já estivesse morto há decadas. Apesar de sua obra ser tão pessoal ( ou justamente por isso) você não fez de sua obra um passe para uma vida aristocrática no Show Business. Celebridade, no sentido perjorativo que possue hoje em dia, não se encaixa no seu histórico, e ainda bem.
E obrigado, por fim, por ter feito uma obra que não é isenta ou alienada, mas simplesmente uma obra que ninguém conseguiu sequestrar ideológicamente. Tentaram, mas ninguém pode engavetar suas obras em nenhuma inclinação política, ou um movimento cultural besta qualquer. não é bolchevich, não é hippie, não é punk, não é "muderno", não é nenhuma porra dessas. É Bergman.
Foi Kurosawa, foi Kubrick, e agora Bergman. Acabou! Quero ver quem, nesse momento de luto, me aponte um diretor que fará de sua morte alguma perda significativa como no caso desses três. E não me venham com Speilberg!!!!
E não posso me esquecer: obrigado por Liv Ullmann. Sempre me amarrei nela.
Recomendo este filme:
"Colour Me Kubrick: A True...ish Story". Sente só: é uma história, até onde pude investigar, real de um sujeito que se fazia passar por Stanley Kubrick, e não raramente se dava bem com esse caô. John Malchovich está hilário.
Uma gogoroba da semana: A tapióca com doce de leite da rodoviária de Campo Grande.
Vinho: Esse frio tá pedindo um frisante. Vai um lambrusco, como os de Sorbara. Lambrusco é legal por ser barato (mesmo os de ótima qualidade) e agradar geral, até aquela mina chata que diz não gostar de vinho, porque acha amargo. Se quer evitar azia, o negócio é não tomar essas versões "amabile", que são enjoativos. Lambrusco que é lambrusco é TINTO e SECO. Saiu disso, virou acomodação de placas tectônicas meramente mercadológicas. Procurem um Riunite secco.
"Colour Me Kubrick: A True...ish Story". Sente só: é uma história, até onde pude investigar, real de um sujeito que se fazia passar por Stanley Kubrick, e não raramente se dava bem com esse caô. John Malchovich está hilário.
Uma gogoroba da semana: A tapióca com doce de leite da rodoviária de Campo Grande.
Vinho: Esse frio tá pedindo um frisante. Vai um lambrusco, como os de Sorbara. Lambrusco é legal por ser barato (mesmo os de ótima qualidade) e agradar geral, até aquela mina chata que diz não gostar de vinho, porque acha amargo. Se quer evitar azia, o negócio é não tomar essas versões "amabile", que são enjoativos. Lambrusco que é lambrusco é TINTO e SECO. Saiu disso, virou acomodação de placas tectônicas meramente mercadológicas. Procurem um Riunite secco.

Um comentário:
Francis Mota é 10, rss.
Vc só não foi mais brilhante para falar do Bergman pq eu pensava que vc nunca tinha asistido SONATA DE OUTONO, esse é o filme que vou passar aqui em casa.
Parabéns, Francis
O nosso mestre foi que conseguiu ,no meio do século 20, transformar cinema em uma forma de cultura MAIOR, disputando palmo a palmo com a literatura ou com teatro de : Becket etc....
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