sábado, 3 de maio de 2008

Urbanóide

No gingado do ônibus suspenso por uma descida, me distraio com o cenário constante de bairros que nunca sairão em postais e nenhum futuro Taunay registrará. O ônibus pára, e sobe sem pagar um mendigo com pernas podres, e um casal Atrazildo da silva se percebe no seu ponto de desembarque e se levanta depois do motorista acionar a partida. O macho da dupla não pensa duas vezes, assovia um "fifiuu" curto e discreto umas duas vezes a titulo de alerta, e o motorista corresponde ao código parando e abrindo a porta de desembarque.

Eu duvido quem em qualquer outra parte do mundo essa atitude, de assoviar para alguém, fosse correspondida de forma tão tolerante. Como que o tratamento e a comunicação entre motorista e passageiro se estabeleceu assim? Que mecanismos urbanos conseguiram estabelecer a legitimidade de um ato que, em minha visão insensível e eurocentrica (eurocêntrica Viena, não euro-periférica Bari), só pode determinar o uso de assovio como método vulgar e precário de abordar moçoilas, ou gerenciar o proceder de cachorros. suspeito que em grande parte do mundo, assoviar para alguém seja excesso de intimidade, quando não desrespeito (No soy perro, hijo de puta!!). Nem sei se é algo carióca, derrepente. mas há de se reconhecer uma coisa: isso só acontece no ônibus.

Esse meio de transporte carreia um ecossistema social muito particular, tanto para sua tripulação como para os passageiros (faunas que se esforçam na distinção, por sinal). A dinâmica de seu uso, assim como seu papel em fazer existir cantos que a cidade sequer reconheceria como sua, é um milagre. Em princípio, quem aqui já foi a Honório Gurgel? Quem conhece essas paragens só o conhece por ônibus! Existem bairros de mais de 100 anos de vida na cidade que não são cartões-postais e nem passagem. São dormitórios que não registram sua existência com uma casa de show, um estádio, um shopping ou uma favela badalada. Não aparece, não tem cara , e é tão exótica para um carioca quanto Kabul ou Odessa.
Honório Gurgel, Cordovil, Vaz lobo, Urucânia, IAPI (meu Deus, a instituição morre, mais o intinerário ainda se identifica assim!), existem tantos bairros que eu, quando criança, ouvia falar (geralmente de um comercial de retífica, depósito de doces ou quejandos) mas que não "aparecem" no Atlas social e cultural. ninguém vai resolver nada em Honório Gurgel. ninguém vai a uma central federal, do estado ou do município que fique em Parque União. Esses locais não abrigam um ministério, um centro de referência, nada! Nada levaria um forasteiro a esses locais. só os nativos frequentam. Vicente de Carvalho! Não adianta conhecer a estação do metrô, tem de descer e ver o lugar! Ou então só um meio garante uma exibição honesta do local, que é o ônibus.
São cantos que somente são exibidos pelo cinema-ônibus, com sua janelas de HDTV, de plasma empoeirado wide-screen, que exibem programações interessantíssimas. É um Animal Planet que te mostra como é diferente essa gente do Catete e essas minas do Barbante; os estudantes são diferentes em Quintino e em Manguariba. Os idosos de Sepetiba são menos marrentos que os de Maracai. Os camlôs se distinguem, as mulheres coxudas e boazudas têm uma geografia e um horário, a bandidagem tem um itinerário e horário, e não raro entrar num ônibus errado é viajar para uma outra dimensão. Ninguém se perde de um aeroporto para outro, mas pegue um ônibus errado pra tu ver! Que pânico pode haver descer em Laguardia ao invés do JFK? O táxi é o mesmo. Mas faça uma confusão entre o 234 e o 334...

É por isso que quando eu vejo essa juventude classe média nos seus carros com ar condicionado e dvd, isolados do mundo real, alienados dessa urbanidade, ignorantes das nuances de uma escolha de assento no ônibus, eu não deixo de chegar a uma indefectível conclusão:

Não estão perdendo porra nenhuma.

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