Hoje me bateu uma de Luiz: resolvi escrever um bocado. Entretanto não posso me comparar com o mestre, pois não consigo escrever de uma tacada só sem pensar no assunto. Tenho pensado neste texto faz tempo.
Confesso que o futebol tem mexido com minhas emoções e meus pensamentos ultimamente. É a dor e delícia de ser Flamengo. Num domingo participar de uma das maiores festas pela conquista de um título. Ver a torcida cantando “mamãe eu quero” para os botafoguenses foi inesquecível sem contar com a versão de “D´ont take my eyes off you”, o já consagrado “Vamos flamengo...” Foi uma dose cavalar de adrenalina e serotonina. Então, quarta-feira, um espetáculo de angústia pra ninguém botar defeito. Coisas de Flamengo: o exagerado, o hiperbólico, craques execrados, perebas idolatrados, times invencíveis que sofrem derrotas humilhantes.
Nessas horas eu fico pensando porque será afinal que gosto de futebol? Então achei a resposta: o ano de 1986. Que 68 que nada, o ano que mudou minha vida foi 1986.
A primeira lembrança que eu tenho de futebol, e que posso datar o ano, foi de 1982. Lembro de ruas e paredes pintadas, bandeirinhas verde-amarelas, Naranjitos e Pachecos em profusão e uma musiquinha que se ouvia aqui e ali: “Voa canarinho voa...” Mas eu só tinha 6 anos de idade e não sabia o que estava acontecendo. Até que num determinado dia à festa acabou, todo mundo ficou triste, e quando eu perguntava o porquê a resposta era a mesma: “O Brasil perdeu”.

A segunda lembrança que eu tenho era também de uma tristeza geral: “Zico foi vendido pra Itália”. E mais uma vez eu não entendia o que estava acontecendo.
Pode ser estranho imaginar um garoto de sete, oito anos que esteja tão alheio assim, ainda mais no Brasil, na baixada fluminense, onde o futebol invade as conversas, o noticiário de tv, rádio, jornais. Onde você muito novo é impelido a torcer por um time. Pois é, na verdade, minhas lembranças de “algo a ver com futebol” são mais antigas. Sem que eu saiba explicar o motivo, ainda muito pequeno, resolvi torcer pelo Botafogo. Surpresa geral na família, todos flamenguistas, com exceção de meu avô materno: caboclo, sergipano e vascaíno. Em meu aniversário de quatro anos me fizeram um bolo decorado com o escudo da estrela solitária. Meu pai me dizia que neste momento eu desisti do time por achar o escudo muito feio e resolvi ser Flamengo.
Nas poucas vezes em que tentei jogar bola na escola primária foi uma decepção total, quase foi expulso pelos colegas por jogar tão mal. Um colega meu tricolor, resolveu fazer apostas comigo nas decisões de 83 e 84. Perdi, é claro. Passei a odiar futebol. Gostava mesmo era de gibi e televisão.
Em 1985 mudamos para o subúrbio de Irajá, onde passei a morar num apartamento de um conjunto habitacional. Para mim foi uma grande revolução. A babá que tomava conta de mim e de minha irmã achava um absurdo que um menino ficasse em casa vendo tv, pediu para eu comprar algo na rua trancou a porta e deu a ordem: “Lugar de menino é na rua, vá brincar com os outros garotos”. E eu acabei gostando. Além das diversas brincadeiras que eu não conhecia, lá estava novamente a maldita (bendita) bola a me desafiar, só que dessa vez, apesar de ainda ser “o pior de todos” eu insistia em brincar. Até que uma notícia deste ano me chamou a atenção: “Zico vai voltar pro Flamengo”.
Não, eu não tinha noção do significado disto, mas a comoção era geral, uma grande e boa expectativa estava no ar. Até depois de sua chegada, houve o encontro das chuteiras de Márcio Nunes com o joelho esquerdo do galinho: frustração. O primeiro jogo que me lembro de ter assistido na tv foi neste ano: a final do carioca entre Fluminense e Bangu. Vitória dos tricolores com um pênalti não marcado de Vica em Cláudio Adão (com galinho de arruda na orelha) pelo árbitro José Roberto Wright (tricolor confesso). Tava difícil gostar de futebol. Entretanto tomei simpatia pelo Bangu e o segundo jogo que lembro de ter assistido foi a final do Brasileiro deste ano entre o Time de Castor de Andrade, e o Coritiba do Goleiro cabeludo Rafael. Frustração novamente.

Até que finalmente chegou 1986, cheio de expectativas.
Zico voltava de longo período inativo e jogaria a abertura do carioca contra o Fluminense tricampeão carioca. Sócrates estreiaria no Flamengo. Os tricolores xingavam Zico: “Bichado, bichado”. O Flamengo venceu por 4 x 1 com três gols de Zico. Era minha primeira alegria no Futebol, e surgia ali a minha idolatria pelo galinho de Quintino. Zico se machucou durante o decorrer do campeonato, mas pelo menos para os torcedores do Flamengo surgiu uma consolação o despontar de Bebeto e a conquista do campeonato daquele ano, contra o Vasco, para incredulidade dos tricolores, com um gol do jogador Marquinhos um jogador que morava perto de minha primeira residência. Pela primeira vez na vida eu gritei: “É campeão, é campeão!”.

Peguei algumas manias: ouvir jogos pela rádio globo, ficar “manchetando” os jornais na segunda e nas quintas-feiras, assistir as reprises dos jogos do carioca na TVE cujo narrador tinha os bordões “Taí o que você queria, bola rolando no maracanã” ou “Ta lá um corpo estendido no chão”, ler jornal de trás para frente, assistir aos “gols do fantástico” e o “globo esporte”.
Meu pai ao perceber o quanto eu estava me interessando por futebol me deu o livro: “Zico, uma lição de vida” e este foi o primeiro livro adulto que li na vida. Fiquei ainda mais fã de Zico, se é que isso era possível.
Mas o ano me reservava mais emoção, era ano de Copa do mundo, e no México. Reportagens sobre a copa de 70 pipocavam na TV: Jalisco, Guadalajara, Pelé, Zagallo, Jairzinho e etc... Surgia o Arakém o mascote da copa da Globo, e a musiquinha “Mexe, mexe, mexe coração...” Existia toda uma expectativa sobre a recuperação de Zico. Num dos jogos preparativos, Zico acabou com um jogo contra a Iugoslávia, marcando inclusive um gol de calcanhar: alegria e esperança. Em outro amistoso, contra Paraguai ou Chile (não me lembro direito), nova contusão: angústia e dúvidas às vésperas da copa. Mexe coração.

Os dois primeiros jogos foram sofríveis, vitórias apertadas contra Espanha e Argélia. Zico ainda não tinha condições de entrar. Contra a Irlanda do Norte, um golaço do improvável Josimar e a entrada de Zico em meados do segundo tempo com direito a passe de calcanhar para o gol de Careca. Jogo que reacenceu as esperanças no Tetra.
Oitavas de final, Brasil e Polônia. Mais um golaço de Josimar mais uma entrada fulminante de Zico: driblou o goleiro e sofreu pênalti e, apesar dos pedidos da torcida, deixou Careca cobrar. Brasil 4 x 0. Arakém sacaneava o papa na vinheta da globo.
Quartas de final, Brasil e França. Brasil começa bem, gol de Careca após triangulação com Júnior e Muller. A França equilibra o jogo no final do primeiro tempo. Platini empata o jogo em falha da defesa. Era o primeiro gol que o Brasil sofria na copa. Vem o segundo-tempo, jogo tenso e equilibrado, a torcida pede Zico. Em seu primeiro toque deixa Branco na cara do gol, pênalti. Desta vez Zico resolveu bater o pênalti. Só me lembro da voz de Osmar Santos: “Bats defendeu, Bats defendeu a cobrança do galinho Zico”. Era difícil acreditar que meu super-herói pudesse falhar. Na memória coletiva o jogo pulou deste lance para a disputa de pênaltis, o resto do segundo tempo e a prorrogação foram apagados de nossa memória. Há alguns anos pude assistir aos melhores momentos deste jogo no canal bandsports e pude constatar foi um dos melhores jogos de copa do Mundo que assisti na vida. Zico jogou muito, Tigana jogou muito. Só não houve um vencedor por milagre dos goleiros e das traves. O Brasil perdeu nos pênaltis como sabemos, e assim quatro anos depois de 82 eu pude entender a tristeza que estava por trás da frase “O Brasil perdeu”. É impossível esquecer a imagem de Fernando Vanucci chorando no globo esporte após o jogo.

Mas não havia só Brasil. Pude ver a “Dinamáquina” de Michael Luadrup sapecar 6 x 1 no Uruguai de Ruben Paz, Rodolfo Rodriguez e Francescoli. Os dinamarqueses foram a grande sensação da copa, com o “revolucionário” esquema 3, 5, 2, suas camisas espalhafatosas e uma torcida que cantava algo incompreensível seguido de “olê, olê, olê”, canto quer foi copado e adaptado pelas torcidas brasileiras.Como esquecer a torcida do México e para sempre copiada “Hola”.

Pude ver as defesas sensacionais dos goleiros Dasaev da União Soviética com seu indefectível uniforme C.C.C.P. de Pfaff da Bélgica, de Schumacher da Alemanha ocidental. Vi uma Alemanha com Rummenigge, Litibarski e Voller, a Inglaterra de Lineker, a França de Tresor, Amoros, Tigana, Platini, Giresse e Rocheteau (um timaço mil vezes melhor que o time de 98). Mas vi, sobretudo a Argentina de Valdano, Ruggeri, Pumpido, Cucciufo, Buruchaga e acima de todos eu vi Diego Armando Maradona.
Maradona jogou muito, mas jogou mais ainda contra a Inglaterra na quartas de final. Jogo que considero junto com o Brasil e França desta mesma copa os maiores jogos que já assisti na história dos mundiais. Jogou muito para vencer a muralha de Pfaff na semifinal contra a Bélgica. Os outros jogos, quem venceu foi a seleção Argentina junto com Maradona. Injustamente se diz que Maradona ganhou a copa sozinho. Creio que isso é impossível. Dizem que a Argentina era um time de pernas-de-pau, Fala sério! Esses caras não viram Ruggeri, Buruchaga e Valdano? Mas é que esses dois jogos foram apresentações individuais que não se viam, acredito eu, desde Cruiff em 1974. E penso que nunca mais nada parecido (talvez Zidane contra o Brasil em 2006) desde então.

Não perder tempo falando do campeonato brasileiro deste ano por que uma final entre São Paulo e Guarani no Brinco de ouro da princesa depois de tudo isso não vale a pena. Só fica o registro do América do Rio na terceira colocação do campeonato.
Depois de 86 eu não conseguiria mais deixar de adorar futebol, a consumir futebol, a pular de alegria, a chorar pelas frustrações, mas acima de tudo ter a esperança na vitória redentora que se seguirá. Como na música Boa Noite de Djavan:
“... ainda bem que eu sou flamengo,
mesmo quando ele não vai bem,
algo me diz em rubro-negro,
que o sofrimento leva além,
não existe amor sem medo”.
A propósito, Zico devolveu com juros (para os flamenguistas, é claro) o pênalti perdido em 86, com atuações espetaculares e o título brasileiro de 87.

O futebol que eu odiava, passei amar depois de tudo e este amor nunca mais acabou. Assim mesmo após derrotas como aquela para o América do México, eu lembro de 86, e esperança começa novamente.