Aqui neste texto tem a honra de contar com as observações e críticas de minha esposa, Miss Brown, em vermelho.
Ao se livrar do crioulo encrenqueiro, os membros da comissão renovam suas convicções:
- Pô... é cada uma que pinta aqui... - diz um dos militantes
- A idéia de fazer esse pelotão de fuzilamento foi de vocês... pelo jeito não esperavam que o cano ia virar pra cá, né... - fala o sociólogo, ajeitanto seu dread - Mas esse prezepeiro, esse palhaço ai num vai esmorecer nossa luta não!!! Vamos defender a justiça social, o fim da discriminação, custe oque custar...
- Melhor seria dizer que vamos defender a discriminação, mas a discriminação positiva, justa, que restaura o desequilíbrio causado por essa sociedade racista e capitalista!!!... - Se exauta um outro militante universitário(redundância?), representante dos estudantes.
- não vamos enfraquecer!... Vamos continuar nosso trabalho, nossa luta em trazer nossos irmãos pra dentro da UNB!
- Que pena que um deles,... um de seus "irmãos", preferiu Priceton... a familia é grande e, heim? - Debocha o antropólogo, cabeça da comissão, com cara de saco cheio e ar de sarcasmo, acendendo seu cachimbo. - Mas até que foi engraçado,... se eu fosse ele, faria a matricula e trancaria no mês seguinte, só pra matar uma vaga...
- O companheiro deveria parar com essas declarações desagregadoras e provocativas em um momento tão solene! e aproveite para apagar esse cachimbo, que aqui é um espaço público. não somos obrigados a colocar nossas vidas em risco por suas atitudes burguesas...
- Ora, vá a merda, Gilson! Tu era doido pra fumar, imitando Stalin... só ficou com vergonha de ser chamado de Véio Zuza, Preto Véio, essas coisas. naõ venha reprimir meu charme, seu ressentido... "companheiro"...?! Há! sou professor nessa merda aqui...
- Mas isso não lhe dá o direito de desrespitar uma norma de toda a sociedade! - grita um aluno - Tu é um mero cidadão com todos aqui, e não pode fumar como qualquer um daqui!
- Chama a policia, então... - desafia o professor antropólogo, com ar calmo, dando de costas pro aluno, que aliás, se chama Vicenzo.
- Já sei o que tu quer! tu quer tumultuar, sabotar o processo! arranjaru m motivo pra dar merda aqui, mas não vai ficar assim não!...
- Se eu quisesse qualquer coisa, de acordo com o edital, só por ser o presidente dessa merda, eu já teria feito. Inclusive te tirar dessa comissão...
- A coisa já tá muito tumultuada, e o pessoal ai fora quer que a fila ande. Vamos trabalhr gente! - Fala o sociólogo, ajeitando seu abadá, e puxando o antropólogo, e falando em tom baixo e falsamente conciliador
- porra, Claudio! A reitoria já avisou que não era pra tu fazer essas graças! Tu quer me prejudicar, cara? Nesse negócio de aluno versus professor só a gente que perde...
- Eu não perco porra nenhuma! Não faço conchavo com sindicato, com UNE, com porra nenhuma dessas. Você é que tem de fazer essas graças pro povo do PSOL, do PSTU. Tõ cagando pra quem vai capitalizar em ciam dessa sacanagem aqui...
- Mas manera cara... nosso departamento já tá vizado demais... tamos perdendo espaço por tua causa,...
- Quem conta com esse palanque aqui é você, que tá querendo uma Secretaria de Igualdade Racial no seu bolso... eu não me sinto perdendo nada, pois não conto em levar nada disso aqui... a não ser alguns causos que farei questão de contar nos bares da vida...
- Mas tu, heim?!?!.. nem parece que é de esquerda...
- E você nem parece que é professor! E chama logo o próximo candidato, que isso aqui já tá me enchendo o saco...
- Candidato 230005-2, Sebastião das Neves!
Meu deus do céu! Que pretensão. Se você pensa que pode traçar conflitos de bastidores no estilo de West wings, se tá mau, meu nêgo. Tá tão artificial quanto personagens da novela da globo lendo jornal antes da janta.
- Graças a Deus... - comenta o Gilson com um dos membros da comissão - Ai vem um caso que não vai dar margens para dúvidas...
Entra um rapaz, com pinta de Chico Buarque com seus vinte anos. Com os olhos verdes, cabelo encaracolado, e sorrindo, fazendo contato visual com o Vicenzo, que disfarça, e finge não corresponder, ou não reconhecer, o que faz com que Tião se recomponha. Claudio já sorri, olhando pros demais membros, que têm cara de constrangidos, desapontados e levemente desconfortáveis frente a decepção de ver um cara com tantas características brancas se apresentar frente a comissão. Uma integrante da comissão não se contem...
- Mas um pra sacanear o processo, porra.... - resmunga pro Vicenzo.
Eu, heim! Nada a ver! quero ver como é que você vai desenrolar essa agora...
Claudio começa os trabalhos:
Bom dia, senhor... Sebastião das Neves... o das Neves tudo bem, ... até lhe cai bem,...mas o Sebastião...(falando de forma jocosa, e olhando pra comissão) conte sua trajetória de via, meu amigo... o que te trás aqui...
- Bom... meu nome é Sebastião por causa do meu pai, que eu não conhecí diretamente. minha mãe morreu cedo também... e fui criado na comunidade da Cachoeirinha, num quilombola do Leblon, no Rio de Janeiro. Fui criado numa família afro-brasileira, e me orgulho muito disso.
- Tu diz então que foi criado por negros?...
- Sim, e só conviví, praticamente com meus familiares e os membros da minha vila, meu povo da comunidade...
- Como assim? quem eram seus pais...ou melhor, sua mãe, era negra?
- Não. Negro, só meu pai. Minha mãe era francesa, recém chegada ao Brasil. Era meio hippie, fazia filosofia, e um dia veio pro Brasil e resolveu morar la na comunidade Cachoeirinha, onde conheceu meu pai.
- Mas sua mãe evidentemente predomina na sua herança...- diz um membro dos movimentos sociais, provocando reação entre os da comissão e constrangendo o candidato. tião se recompõe.
- Bom... eu acho que minha maior herança vem daqueles que considero meus verdadeiros pais, pois foram eles que me criaram. se hoje eu sou alguém, é graças a lels, e por eles eu quero ser alg mais, quero fazer Direito...
-Há! direito?!.. Tem uma faculdade de direito na UERJ, no Rio. Por que não tentaste as cota de lá?
- Por que fui transferido pra cá, pois eu hoje trabalho nas forças armadas. E também por que aqui na UNB sempre ouvi dizer que o curso de direito está mais voltado pra construção da justiça social. Sou fã do Eros Graus... E mais importante de tudo... eu...(falando com o olhar na direção do Vicenzo)... eu queria,... e eu queria provar minha africanidade de uma vez por todas... Na Uerj oque vale é a declaração, e eu quero mostrar a minha negritude!
- Hum... tá difícil, brad pitt... - cochicha a mina da comissão pro gilson, que discretamente ri, em desaprovação complacente.
Hum!!! Tá difícil mesmo! Tá forçado demais, tá confuso. Tem mitas lacunas, meu querido...
- Mas de onde vem essa africanidade que tu diz?! Tamos vendo que tu usa essa camisa ai (com as cores da etiópia, com Haille salazye na frente, e Che Guevara nas costas em vermelho branco e azul com a estrela vermelha cubana/pt ao centro), esse cabelo (um dread irado e rebelde), ou seja, tu externa acessórios curiósos para sua cor...
- Não são estranhos a minha origem. De onde venho, aonde fui cirado, isso é normal. Eu sempre fui assim, e não sei ser de outro jeito: luto capoeira melhor que qualquer um daqui, sou jongueiro, sou alagbê do meu terreiro, eu vivo minhas raizes... até sofro por isso também...
Claudio olha pro Gilson e provoca: - Não vai fazer as perguntas de praxe? Gilson se contém em começar outro bate-boca e pergunta a queima roupa:
- você já teve alguma relação com uma mulher afrobrasileira?
- Claro! Só!
- Nunca te bateu uma sindrome de Fantasma?
- Como assim?
- Sabe, a história em quadrinho?!... o Fantasma era um espirito de um europeu que se encontrou perdido na Africa e resolveu ser o justiceiro da região. vivia nba Áfria, mas sempre que p´recisava arranjar um herdeiro pra dar ocntinuidade a sua dinastia, arranjava uma branca. O cara vivia na África, entre negros e negras, e dizia lutar pela África, mas na hora de dar ocntinuidade a sua história, não misturava as coisas: só acasalava com brancas.
- Não é o meu caso, meu senhor! Não que a cor me faça qualquer diferença além da diferença que faz o gosto das frutas. Mas geralmente minhas namoradas são negras. Meu filho é negro como eu. Aqui a foto dele. (saca de sua carteira uma foto de um mulatinho que é a cara dele, com a mãe, uma Vatusi)
- Então tu não tem problema de arranjar mulher de qualquer raça, diferente dos negros, que são rejeitados por brancas, não é. - provoca a militanteira
- Isso é você que acha...
- Vai me dizer então que tu já foi discriminado pela sua "cor"?!?! - pergunta, com ar de descrença.
- Sim. Tanto por meus irmãos que não acham que eu possa ser como eles, como por brancos que acham que sou maluco, ou faço tudo pra aparecer. É a mesma complicação, seja pra arranjar mulher, trabalho, sair...Teve uma vez que eu fui a um baile charme, lá no Rio, e quiseram me enquadrar só por causa da minha cor!
- Há! Isso é mentira! duvido!
- É verdade, porra! Só por que eu fui falar com uma mina, começaram a dizer que aquele não era meu lugar, que sorvete de baunilha eles derretem é na chapa quente, e queriam me acertar. botaram uma arma na minha cara!
- Não seja leviano em inventar essas histórias que vão criar e reforçar um estigma covarde contra os afrobrasileiros! Com pode?!!?...- esbravejava o ongueiro.
- Mas é verdade! E se quiser, eu tenho testemunha aqui mesmo, ... Não é Vicentinho?
- Oooooó...
Silêncio sepulcral. Todos se voltam pro vicenzo, que , de cabeça arriada, lentamente levanta sua carranca e diz em lamento:
- ...Porra, Tião...
-Ooooóóó´... (sepulcral)
- Fui criado por dona Neuma e seu Vitorino, pais do Vicenzo. É meu irmão, ele sabe de mim... fala pra lels daquele dia, no jogo lá em Saõ Conrado, oque aconteceu...
- Me tira dessa , Tião! Não tem nada a ver... esse aqui é um outro processo, não interessa essas histórias...
- Mas essa garota tá me chamando de mentiroso!! tu não vai dizer a verdade?!? não vou passar por mentiroso por que você é covarde,cara! tu sempre foi assim, Vicenzo...
A garota militante pergunta, chocada, pro Vicenzo: - É verdade?!? Isso aconteceu lá no Rio?! Tú tava lá? Tu conhce ele ou não conhece?!
Vicenzo reluta, mas responde:
- É tudo verdade! Eu conheço sim. Somos quase irmãos. mas nossas vidas são diferentes. Não quero colocar em dúvida minha postura frente a nossa missão com esse episódio...
-Familiar?! - complementa provocativamente Claudio.
Essa história de botar cariócas na UNB vai ter de ser explicada ,my dear... sooner or later -
... é. Sebastian é meu irmão... foi criado comigo. Eu o conhço desde de que nasceu. Gilson pergunta, entre espantado e revoltado:
- E você confirma tudo que ele contou?
- Sim... mas não posso considerar isso oficial... Vem um silêncio que é seguido de um discreto pigarrear do professor Cláudio:
Silêncio exumado? Quantos tipos de silêncio... o melhor é o do fianl da história
- Meu querido Sebastião - diz ele, com ar de quem está se divertindo - tente compreender. todos aqui,... talvez um pouco menos eu, estamos preocupados com um dilema. Afinal, se por um lado você, ham... cmo é que você disse naquela hora, vicentinho?... sim!: Se por um lado você "representa", sua cor é evidentemente uma dúvida. Não encontramos nenhum traço de afrocentricidade em você. Não temos nenhuma disposição em aturar, amamnhã, um monte de gente dizendo que te favorecemos, quebramos as regras ou que somos incoerentes, por mais que esse processo provoque incoerências... Acho que a idéia de exame genético não era tão abusrda assim. Cada vez gosto mais daquele candidato, o...
Sempre tentando puxar pro texto anterior, que deu certo? Coisa feia...
- Não seja rídiculo, oras!! Esse cara é branco, tá na cara!! E nos olhos, e nesse ar de desentendido. Certamente veio fazer o vestibular aqui procurando algum favorecimento do Vicenzo! - esperneia uma militante
- De forma alguma! Alto-lá!! Tá me tirando de corrupto?!?! Eu nem sabia que ele iria fazer vestibular! aliás, tu nem tinha o segundo grau da última vez que nos falamos, tião...
- Eu não posso dar atestado de africanidade pra ninguém, e nem é esse o papel da comissão. E tu, Tião, não pode sair por ai falando que é negro se tu nem conhgeceu teu pai, porra!
Nessa hora, Tião se enche de ódio e voa pro pescoço do Vicenzo:
- Seu viadinho, filhadaputa, desgraçado!! Eu sei sim, quem é meu pai!! SEU VITÒRIO É MEU PAI! EU SEMPRE SOUBE! DONA NEUSA SABE DISSO SE IDIÓTA TAPADO!! ELE É MEU PAI, E SEMPRE ESCONDEU ISSO DOS OUTROS! FOI ELE QUE NÃO QUIS ASSUMIR!
Virou o que tava prometendo a muito tempo: novela mexicana! Olha a Maria do Bairro ai, gente!!! Que escrotidão... "textos que me envergonham" - minha nova comunidade do orkut!
Todos tentam apartar a porradaria, e tião cai, exausto, murmurando..
- Meu pai é seu Vitorino. Meu pai é o teu pai, Vicentinho... como tu nunca notou, cara...? Como pode ser tão cego...?
vicenzo se ergue, ainda cambaleante pela asfixia, mas não deixa de murmurar:
- Eu sempre soube...
OOOOOoooooóóóóó!!!! (isso é bocejo)
Ao ouvir essa, Tião se levanta e sai desembestado da sala. Vicenzo faz que vai segui-lo mas se retem na soleira da porta.
- É melhor vocês resolverem isso lá fora.. é um caso que não poderemos decidir aqui. - Diz o Gilson
Agora o Gilson é o conciliador? Queremos paz?
- Concordo... teremos um parecer depois e... -diz claudio - Eu acho que a comissão deveria fazer uma pausa, que eu já volto. - Diz vicenzo.
- Você não precisa se preocupar em voltar, Vicenzo... - diz desafiadoramente Claudio
- Como assim?...
- Tu tá fora.
- Protesto!! Isso é uma arbitrariedade! É uma perseguição. É uma discriminação! Como podem fazer isso com o estudante que mais representa os afrobrasileiros dessa universidade?!?! Você que enfraquecer..
- QUER VER ARBITRARIEDADE? QUEM AQUI SE OPÕE A DECISÃO DE DESTITUIR O VICENZO?
Silêncio humilhante pro vicenzo
? Humilhante?
- QUEM SE OPÕE A ADMISSÃO DO CANDIDATO SEBASTIÃO DAS NEVES?
Nenhum dos murmurios silenciosos articulou qualquer contrariedade.
- Isso é arbitrariedade, sim. E ainda bem. Tu tá fora da comissão.
Vicenzo se retira e corre atrás de Tião.
Fade out com introdução de "Retirantes" do Dorival Caymmi
Foi pra isso que você me acordou de madrugada, Blinder??...
Agradeço a minha dignissima esposa por sua contribuição. Podem notar que sem apoio e cumplicidade de sua cara metade, a gente não chega a lugar nenhum.
Música em homenagem a minha rainha: Ela, de Gilberto Gil