- Tí! Perai, cara!
Continua Sebastião a andar rápido, sem olhar pra trás.
- Tião!! Para ai, porra. Perai. - Segurando seu braço, ao alcançá-lo. Tião dá uma chave estilo krav-magá, o derruba e ameaça certar seu pescoço, olhando, como olhos marejados mais raivosos, e bufando muito.
A raiva cede aos poucos, e el cai sentado. vicenzo se arrasta pro lado dele. depois de alguns minutos de reticências, vicenzo fala:
- Cara. Me desculpa nem ter falando mais contigo... perdemos contato. (...) eu nem sabia que tu tinha conseguido terminar o segundo grau.
pausa
- Fiz a prova do estado... (pausa) Quando terminei o curso de fuzileiros... sou cabo agora...
- que bom... é uma grata surpresa saber que tu tá procurando algo maior...
- eu sempre quis algo maior! (pausa seguida de fla mansa) - queria ter tido as benção que tu teve...
- Bom... tu não pode dizer que não teve la suas bençãos...
- Como assim? Se tá sugerindo que ser branco me ajudou em alguma coisa?
- Claro, porra! Mas é claro que ajudou...
- Como cara!?!?! Como!!???! Explica preu entender!!
Silêncio, pra amanssar. vicenzo se rearticula:
- Põ cara... tu teve o maior abrigo lá em casa! Mamãe te tratava como filho, cara.
- Seu vitorino nem tanto...
- Mas sempre te ajudou. Papai semre te abriu algumas portas, te deu apoio...
- Não como filho dele!! Vai me dizer que ele me deu as mesmas oportunidades que tu teve?!!!! Quando eu tive de viver sem saber que era meu pai por mais de 10 anos, todos debochavam de mim. Se lembra por que matei a galinha da dona Isaudina?... todo mundo dizendo que eu era pinto dela, por que ela era uma galinha branca e gorda...
- Deu a maior merda degolar aquela galinha... (comenta, com ar saudosista)... tu fez que nem a Sinhá Delinia quando sacrificava os bichos... tu lembra? he he!
- Foi a inspiração, he he he.
Silencio
- Sei que foi difícil pra você, Tião... não posso dizer o quanto, e me envergonho de não ter sido mais honesto com você mais recentemente. Justamente esse monte de segredos guardados é que me levaram a me afastar de você... do papai...
- Desde quando tu sabia que seu vitorino é meu pai? Pergunta Tião.
vicenzo faz uma pausa e reflete:
- Desde aquele dia, quando fomos fazer prova pro CEFET. Eu me lembro que não passamos, e papai ficou arrasado. ele ficou muito chateado contigo, e muito triste quando me colocou no Palas, e tu acabou indo prum colégio do Estado. eu vi nele uma culpa muito parecida, cmo quando ele me negava ou não podia me dar algo importante. Tinhamos uns 14 anos. apertei mamãe... tadinha da mamãe... morreu de vergonha. Porra... como eu me arrependo daquele dia! queria não ter sdabido assim... a cara de humihlação dela... porra, ela gosta de ti como filho, mas deve ser barra te olhar e ver tanto do pai e de sua mãe em você, cara...
- E nada dela...
Silêncio
Tião retoma:
- Não que eu não quisesse... eu adoro dona Neusa. Nunca me destratou, pelo contrário.
- Pois, é... quantas vezes eu fiquei com ciúme... mas tarde eu até compreendi...
- Tua mãe tem um grande coração. Imagino ela falando que eu não tenho culpa, que sou uma vítma... aquela argumentação generosa... a gente nunca tava errado o bastante pra ela ficar contra a gente... sempre nos defendendo...
Pausa
- E você, Tião? Quando que soube...?
- Eu ouvi uma discussão de seus pais um dia, depois de eu ter feito uma merda federal. Se lembra da carroça do seu Matias, o catador do outro lado? Então... ela dizia que não ia deixar seu vitorino fazer nada impensado, que eu não era o único culpado, e ai desenrrolou a história toda. Também dedusi, ... assim como desconfio que mais gente sabe ou já notou. ele era muito erscancarado também! Ele sempre nos tratou muito igual, Vicenzo...
- não o bastante...
- é...
Pausa
- E como é que você veio parar aqui na UNB? Essa história de ser estudante daqui? De onde veio isso, vicenzo?
- Ué?! eu queria fugir. Resolvi fazer Sociologia aqui... tô no nono período...
- e já é importante aqui, heim?!
- não... só sou articulado ai com o pessoal da luta... se bem que.. agora, ... acho qe a casa caiu...
- Cara, não queria te prejudicar! eu juro que se soubesse que ia dar uma merda dessa, eu...
- não, cara. Eu tava lá pra fazer oque é certo... pelo menos eu deveria ... eu queria acreditar nisso... Cinceramente, eu acho que tu não deveria ter passado por tudo isso para entrar pelas cotas. Ninguém amsi do que eu sei que suas vantagens não te favoreceram a pont de...
- Lá vem de novo você com essa história! Que vantagens!?!? Vai insistir que, de alguma forma, o fato de eu ser visto como branco, ou não ser visto como negro, me favoreceu em alguma coisa!!
- E não?!
- Quando!?!?! Sempre estive na merda. Nunva tive as oportunidades que você, sim, teve!
- Cara, tu sempre foi o preferido...
- Ah, vai ti fuder!!! tá falando de quê?!
- É isso mesmo!
- Das minas?!?
- De tudo!! Quem foi escolhido pra fazer o Gedião nas festas do Jongo?! Papai escolheu você!! Pura culpa...
- culpa o caralho! Eu era o melhor. Batia melhor, dançava... DANÇO melhor e sempre soube puxar o povo desde criança... foi coerência, invesojo...
- Que nada, foi protecionísmo, migalhas!
- O cacete!
Pausa longa. Vicenzo faz que vai se retirar, e Tião fala:
- você sempre se sentiu um nobre, um superior lá na rua. fosse no Terreiro, fosse nas festas, em tudo você desfilava como se fosse um nobre, como se exercesse um direito divino... só por causa do seu Vitorino. Eu nunca pude sentir o gosto dessa nobreza...
Pausa. vicenzo senta do lado de tião:
- Por outro lado, se eu exercia o direito de nobreza, a reverência era prestada a você e aos seus feitos... Sempre o herói da turma... sempre o campeão improvável! Toda admiração se voltava pra você. Nos campeonatos de pelada... se lembra?!? era você o vitorioso. eu só poderia ser satélite... quantos te admiravam como um redentor...quantos se aproximavam de você... como se fosse o herdeiro da valentia e do brilho de seu Vitorino.
pausa
- Eu sei que isso nunca pôde ser explicito, Tião. Mais não raramente eu tive de engolir o questionamento: como o Vicentinho não espelha seu Vitorino... já Sebastião...(pausa) e eu sei ue isso nunca foi intenção sua, mas tente entender que uma hora ficou difícil aturar.
- foi difícil pra mim também! Depois que eu soube da verdade, foi um inferno... Quantas vezes eu quis dizer a verdade pra ele. Por isso que fui servir nos fuzileiros. Eu não podia caçar uma UNB ainda, como você.
- Como foi essa coisa de fuzileiros?
- Então... Quando a gente tava fazendo a triagem, se lembra? Tu foi pro CPOR, e eu, como não tinha o segundo grau e nem tava em faculdade, tive de encarar o BG, cara... foi foda!
- Eu larguei o CPOR... esse negócio de milíco não era pra mim...
- Já eu,não pude largar nada... sempre precisam de alguém pra capinar o quintal do major lá em Realengo...
-É...(pausa) vamos beber alguma coisa...
Na Lanchonete:
- Me diz, ai, o vicentinho... tu sempre teve o maó ressentimento em relação as gatas, num é?
Vicenzo, evidentemente constrangido, resiste em responder, mas solta:
- Não. Eu só lamentava perceber que a mais pura verdade não podia ser declarada, sem parecer justamente ressnetimento: as mulheres preferem homens brancos, seja de que raça for.
- Ah! que isso vicentinho?!!!! Tu ainda crê nisso?
- Creio não: eu sei, eu vi, eu observei, eu testemunhei!
- Nada a ver...
- Claro que não tem nada a ver pra você... pegador, pegava todas. Branco, de olhos claros, se dava sempre bem. Tu tem aquilo que as muhleres consideram bonito. Cê acha que teria conseguido tanta mulher se fosse negro?
- Sei que não conseguiria nem um décimo se pensasse e agisse como você...
- Como assim?
- Esse seu jeito complexado e ressentido. Com raiva do mundo, se sentindo sempre inustiçado. mulher sente esse cheiro de longe. Elas querem aqueles que se acham por cima, mesmo que o cara seja um borra botas, mesmo que não tenha porra nenhuma. Mesmo se for bandido. Se lembra do que seu Vitorino dizia? ...
- "Nunca vi bêbado, malandro e nem bandido sem muhler nesse mundo...". É! Mas lá na Cachoeirinha as minas gostavamde você por quê?!?! por causa da sua eurocentricidade!
- Talvez por causa d meu exotísmo... pode ser.. mas nunca por parecer branco não. Eu era paenas diferente. quantas branquinha curiosas tu não pegou aqui vendendo o mito do homem negro, com pau até o joelho...
- Bom, ... foram pesquisas de campo,... cointribuição para o aumento da diversidade...
E eles riem da piada babaca e patife
- Sabe quem sempre camou atenção disso? não fui eunão, Vicenzo. Foi seu pai, seu Vitorin mesmo. Se lembra da tua primeira namorada?
Vicenzo pensa, e se assusta:
- Caraca...a Deusileusa... hum!! Que vergonha! Como é que eu continuei na escola depois de encarr aquela coisa.
- Porra, cara!! A garota não tinha nem três dentes! Era toda esquisita, feia pra caralho. Uma bruaca preseperia, brraqueira...
- nossa, eu não sei o que me deu!
- Mas eu sei. A galera toda tava te zoando quando a gente voltava pra casa, por que ela tinha levado o maior esporro da mãe na frente de tdo mundo. quando a gente entrou na varanda da tua casa, só estavamos você e eu, eu te perguntei cara. Perguntei como que tu aturava aquele bicho feio. Se lembra do que tu disse dela? Ela nem era uma mina manera. Tem mina que a gente entende que é feia, mas é gente fina pra cacete. Não era o caso dela. Ela era burra, feia, falava alto, mal vestida...
- Mas era branca.
silêncio
- Se lembrou?
-Sim. (pausa). Mas eu era criança. Tinha uns 11 anos. Eu não tinha noção de como esse racincínio era escroto. Foi traumático carregar isso.
- Foi mais traumático pra Nildete.
- Porra!!! Como ela tá, cara?!?!? Cadê ela?!?!
- Casou... saiu da comunidade (pausa). Nildete era louca por você, cara. E era linda. Eu era louco por ela. Metade da vila queria namorá-la. Mas ela ficava aguardando por você. Cês sempre estavam juntos, conversando. Brincando. Implicando um com outro. Seus pais faziam muito gosto dessa amizade. eles a chamavam de "a prometida". O pai dela, seu Geraldo, brincava com seu Vitorino: "olha o dote da prometida, heim.."!
- Eu sei... eu fingia, ... a gente fingia que não entendia essa bobeira deles...
Saem da Lanchonete em direção ao ponto de ônibus. Silêncio quebrado por vicenzo.
- Cara... muito do que faço hoje é por que eu me despertei para o privilégio de ter a origem que eu tive, e nunca soube direito como direcionar essa riqueza do meu passado. do nosso passado. Acho que devo muito a você por não ter sido mais companheiro e mais honesto contigo. Espero que um dia você me perdoe...
- Perdoar ocaralho! que viadagem. A vida é assim, como sua mãe diz. A gente não tem mais por que ficar afastado assim, um do outro, como inimigos também, né.
- Claro que não...
-só lamento que não poderei estar tão próximo de você na UNB, pois acho que sem as cotas, eu não passo, mas...
- Não cara! Mas você vai entrar pelas cotas sim!
- Cuméquié?!
- É! O cabeça doda comissão tá querendo bancar sua entrada pelas cotas. E el é pedreira, cara...
- Mas isso não vi te prejudicar?!
- Só vou me sentir prejudicado se você não entrar, Tião!
- Mas vai dar polêmica... o resto da banca vai armar alguma coisa...
- Pode ser, mas... sabe essas palhaçadas de autonomia universitária, democracia, gestão participativa e o caralho a quatro? É tudo desculpa pra gente fazer ummonte de merda aqui dentro e cagar pro que os outros pensam. Tem horas em que a arrogância do meio acadêmico dá um ponto final, e não dá satisfações a ninguém. Dessa vez, será por uma boa causa.
- Já tô me vendo na capa da Veja com você...
- Aquela revista reáça!?...
- Reaça por que diz a verdade?!
- Seu...
Fade out, audio morre, entra a musica... ah! chega!
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