
É cada vez mais difícil encontrar uma reportagem que não passe de mera propaganda, mero marketing direcionado a um mercado ou um produto. É descarado infomercial.
É o caso da "reportagem" deste domingo, na revista do jornal O Globo, que descreve uma duvidosa pesquisa, mal elaborada e mal apresentada na reportagem sobre o baixo índice. Pegaram 1000 domicílios no Brasil e perguntaram sobre os eventos "culturais" realizados no ano passado. A pesquisa conclui que a maioria dos brasileiros não consome cultura porque não se interessa ou não tem hábitos culturais. Ora, essa?!?! Vai num muquiço perturbar alguém e perguntar porque razão ano passado o entrevistado (que pode não refletir a realidade de cada e todo morador da casa) porque ele não leu, não foi ao teatro e coisa e tal. É claro que ele vai dizer um resumido "por que não, não gosto e tenho raiva de quem gosta". A maioria dos brasileiros sequer tem contato com cultura, e por isso nem cogitam a questão do preço de um show. Mas todo mundo pagou mais de 200 reais pra ir ao show do The Police.
Numa avaliação primeira, percebo que o texto calhordamente reproduz o discurso de que balé, cinema, ler livros, ir a teatro, visitar exposições ou curtir um show é cultura. Já começou mal, pois se a reportagem deseja chocar o leitor ao afirmar que 53% dos brasileiros não fizeram nada disso, talvez eles estejam sendo criteriosos, pois nada disso por si só é cultura. Afinal, se no ano passado você leu "O Segredo", assistiu Desbravadores ou Xuxa Requebra, foi a uma exposição-shopping do CCBB ou a Bienal do Livro, foi ver "Abalou Bangu" e compareceu ao show de retorno do Belo no Canecão, você talvez tenha se divertido muito, mas de cultura não absorveu nada.
É só abrir a Veja Rio e a Veja São Paulo para perceber que o Rio, com menos habitantes, tem uma quantidade significativamente superior a SP em salas de Teatro, cinemas, museus e o cacete. Mas no RJ os circos "culturais" são subutilizados, vazios, de péssima qualidade, apresentam um calendário curto e pouco frequente, requentam exposições, tem variedade limitada, e o mais importante, nem de longe oferecem cultura, e sim entretenimento (pobre e caro). Em SP, o caso é contrário -tem tudo demais de tudo ao quadrado, ao mesmo tempo, e não há tempo de selecionar criteriosamente e curtir tudo. Quem foi a dez sessões de cinema e 5 de teatro em SP ano passado tá por fora, ultrapassado, e pode ter visto muito gato por lebre também. Certamente um musical chinfrim, pelo menos.
Quanto ao resto do pais, não ter hábito de consumir entretenimento não significa ausência de cultura. É mais fácil discutir cinema com colegas nordestinos doque com cariocas, pois se os cariócas tem mais salas de cinema, são menos criteriósos. Vão ao cinema como quem vai ao banheiro do shopping.
Dizer que o carióca não vai ao teatro é uma canalhice, frente ao engarrafamento que se tem de enfrentar no estacionamento do Shopping da gávea ao final de uma peça em plena quinta-feira. Todo mundo viu ano passado aqueal maldita peça "homens são de marte e é pra lá que eu vou...". Um episódio de Sex in the City aguado. Pagar 50 reais por isso é uma burrice, mas as pessoas vão mais pelo happenig, pra dizer que foram, que viram, que fizeram parte do "fenômeno". Por isso, aliás, que a questão do custo ficou em quarto, QUARTO lugar, na razão de 55% dos cariocas não procurarem "cultura".
Quando um tal de Gaspariam diz que ainda não conseguiu convencer o Brasil que ler é importante, com parando o êxito que a policia ideológica propagandista teve de convencer o povo que o cigarro faz mal, eu fico com medo de comprar livros pro meu filho. Eu não deveria ser convencido, ninguém deveria ser convencido de nada. Quando uma coisa é importante boa, ela se sobressai. Até parece que eles podem (evidentemente tem a pretensão e o desejo) determinar a vontade e a opinião pública de forma tão dualista, como se o povo fosse um interruptor. Deus Garanta que não seja assim, pois se um dia for conveniente convencer a patuléia de que bom mesmo é comer merda...
O problema é ter acesso as coisas boas, pra depois se construir um parâmetro entre um domingo caro e infernal no shopping, um domingo na fila de um parque de diversões eletrônicas, um domingo tranquilo no Pico da Tijuca e um domingo (também de filas) no CCBB. Se leitura é bom, será que beneficia alguém ler Harry Potter? Sim, como entretenimento...Mas cultura? Sei não... Venderam a rodo aquela porcaria de "O Segredo", e duvido que alguém possa prestar um concurso de redação com melhor desempenho graças a esses "best-sellers" pessimamente traduzidos. todo mundo leu e assistiu "O caçador de pipas", e como cinema, arte, ou literatura, a coisa é tão rasa que uma formiga atravessa com o espelho d'água nas canelas.
Pra mim, faz mais sentido comprar um CD de jongo pro meu filho doque o Pequeno Príncipe. aliás, esqueceram de ter uma concepção ampla de cultura, já que sair pra dançar, fazer origami ou artes plásticas/performáticas, praticar ao invés de consumir arte, também é cultura. Até ter um grupo de roda de samba ou ter um grupo de degustadores de vinho (como esse grupo já foi) tem mais consistência cultural doque ir a uma peça do Miguel Falabela. Se na pesquisa perguntaram a um sujeito do Andarai se ele vai ao cinema, teatro, balet ou qualquer porra dessas, ele pode dixzer que não, mas também não tem a oportunidade de dizer que faz parte de uma irmandade-bloco de Folia de Reis, e isso é cultura. Dançr Jongo, fazer cerâmica, tudo é cultura. Atualmente ler Dapieve e suas dicas musicais é mais renovador culturalmente doque ir ao MASP. Aliás, é impressionante como vc pode ficar dois semestres sem ir a Casa da Moeda ou ao MBA, e encontrar tudo igual como há um anos atrás. Mas a FeComércio tá preocupada como consumo de entretenimento.
E por último: as atividades culturais gratuitas no Rio e em SP sempre lotam, tem um púlbico cativo, e qualquer novidade enche em dois fins de semana. E nas selvagens filas desses eventos, você encontra todo tipo de gente em termos sociais, étnicos, culturais e o cacete. Vai me dizer que o fator não é grana... cai fora, pesquisa furada.
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