
Nesse domingo 15/09/07, uma reportagem do O Globo divulgou um parecer no mínimo ridículo sobre a diversidade racial no Brasil, declarando que finalmente, com mais negros, o pais se tornou uma nação cuja mestiçagem se consolidou.
Pra começar: quer dizer que a mestiçagem, coisa defendida há décadas no Brasil intelectual e cultural como uma realidade e uma característica nacional, não existia então até 2006. Era tudo invenção e provocação, pura forçação (caray?!!?) de barra, e não uma constatação orgulhosa e quase indisfarçavel na pele do povo dessa nação? Só agora nos tornamos mestiços de verdade? Que eu saiba, no Brasil tem vira-lata de montão há séculos. Inclusive no que diz respeito ao porte genético e fenotípico. só que a sociedade brasileira perde tempo laureando oque é subjetivo, e não estuda, não procura compreender o objetivo: não existe gente pura no Brasil.
Mas o fato de uma pureza étnica ser quase que insustentável no Brasil, não significa que todo mundo é mestiço e acabou, e nem sequer que existe apenas pardos no Brasil. A última PNAD do IBGE só corroborou oque qualquer pessoa séria e sóbria compreende e recusa: a classificação de cor e raça no Brasil não tem nada a ver com identidade étnica, apesar de usarem em todo discurso (acadêmico, político, ideológico, sei lá...) a classificação de cor como identidade étnica.

E isso muitos fazem com intenção e conveniência. Como qualquer um sabe, pardo não é apenas o cara que é afrobrasileiro, mas até o chinês com árabe é pardo no Brasil, pois os instrumentos para exclusão das pessoas caboclas não existem, e muito menos os cafuzos e mamelucos. Tecnicamente o pardo deveria ser a manifestação do mulato, ou seja, a mestiçagem de preto com branco, mas como não há identificação das outras possíveis formas de mestiçagem (muito presentes nesse pais), esses acabam fazendo também parte dos pardos não raramente. Acaba que toda mestiçagem, de índio com preto e de branco com índio, se torna pardo. Ou seriam os cablocos brancos? Ou seriam os caboclos índios?. Onde ficam as outras mestiçagens não-africanas. Se alguém defender que caboclo é branco, então a maioria do Brasil é Branca; se ocorrer a defesa de que caboclo é índio, então a maioria do Brasil é indígena. Mas no final, o que acontece no Censo e nas PNADS é que: se não é preto, não é branco, não é índio e nem amarelo, é pardo.
E ai, é fácil pra qualquer um desses movimentos de protestantes-negros-profissionais alegar que a maioria do Brasil é negro, alegando que negro é todo preto e pardo. É um tremendo mau caráter quem faz isso. Mas é fácil sê-lo no Brasil, impunemente.
Além disso, quem tem noção da diferença entre cor e etnia sabe que o conceito de pardo nos remete ao hibridismo, impureza, indefinição ou ausência de identidade. Em resumo: vira-lata. Não tem pedigree, não tem berço. Se a academia vive cantando a mestiçagem como virtude e característica louvável na nossa sociedade, no senso comum, essa maravilhosa mestiçagem não pode ter um nome tão depreciativo como "pardo". O termo não convida ninguém a exercer qualquer postura cultural ou ideológica, pois é vazio de identidade, de origem definida, de nada que não seja uma sugestão da cor de pele da pessoa (o que faz qualquer escuro como o Edson Celullari ser encarado como pied noir na França, apesar de ser branco no Brasil), algo muito relativo, dependente da subjetividade do olhar e dos preceitos & preconceitos de cada um.
Desafio que alguém me aponte uma música, um poema, uma ode ou uma manifestação artística que aborde, sequer ABORDE o termo pardo. Que pelo menos cite a palavra "pardo"? De mulatas, crioulas, pretinhas, marrom bombom, e quejandos eu já tô cheio de exemplos. Agora me apontem uma musica com o termo pardo. NÃO tem, e não em porque esse termo é ´não existe para sociedade, para o brasileiro. Ninguém usa o termo pardo no dia a dia, ninguém identifica ninguém com esse termo. Simplesmente não há aplicação desse termo nas relações sociais e culturais, comunicativas de nossa nação. É um termo alienígena, de uso meramente técnico, e mesmo assim no meio demográfico. Nem mesmo na academia ele é utilizado, de tão inadequado que ele é para representar qualquer característica que não seja o mero vazio de definição, a falta de substância, o nada. Ninguém estuda o pardo na academia. Estudam o preto, o mulato, a morena, a cabocla, a galega, mas o pardo não existe para a antropologia, nem para a sociologia e nem pra ninguém que pretenda pensar sobre o concreto.
Mas se o termo pardo é tão pouco consistente, por que razão o IBGE o consagrou como tecnicamente útil para descrever a cor do brasileiro? Justamente por ser inconsistente, indefinido. Não compromete ninguém. Não ofende, não fede e nem cheira. ´Parece ser objetivo, imparcial. Apenas um reconhecimento de tom de pele, sem fazer juízo de origem ou história. Quer dizer, se você chamar algum negro de pardo ele vai achar escroto, mas não vai esvaziar uma UZI nocê. Já uma morena, cara de Iracema com olhos azuis, vai ficar puta se tu chama-la de parda. É exatamente a ausência de valor cultural ou social de termo pardo positivo, além de seu pouco uso, que faz desse termo um instrumento mais interessante, no quesito técnico.
Mas também é justamente essa insipiência, essa coisa sem sustância, que faz desse termo um elemento depreciativo para o homem comum. É quase uma desqualificação ser pardo. É a indefinição, é a ausência de herança, ou pior, é uma herança tão bagunçada, tão vira-lata, que não merece ser nada além da exclusão da condição mais sóbria de ser um branco, um preto, um amarelo ou um indígena.
De qualquer forma, a "noticia" divulgada na reportagem dá conta do aumento de pessoas que se declaram pretas no Brasil, uma aquisição de quase um milhão e meio de "novos negros" declarando serem pretos, especialmente em regiões bizarras como o Norte e o Centro-Oeste. Só na região Norte, por exemplo, entre 2005 e 2006 "surgiram" 370 mil pretos do nada. Isso em uma região que todos sabemos que a negritude não é seu forte, mas sim uma predominância coerente de pardos pelos caboclos, que aponta mais de 69% das declarações de cor. De um modo geral no Brasil sumiram pardos e apareceram pretos em todas as regiões em um ano.
Notes-se que brancos ficaram praticamente estáveis, variando de 49,9% para 49,7%. Isso que é convicção e coerência. Portanto a transformação de brancos pra pretos é insignificante. O pardo é que tá virando preto. E será que todo pardo que se acha preto agora é realmente preto? Claro que não, ou melhor, ele é pardo que quer assumir uma negritude, que não pode ser mensurada.
Essa metamorfose é vergonhosa, pois se alguns vão brindar esse fenõmeno como efeito de duas décadas de açlões afirmativas afrocentradas no Brasil, poucos vão perceber que esse efeito é enganoso, pois através dos dados das PNADS não se constrói necessáriamente uma identidade étnica, e sim uma declaração de cor, que é um indicador social, como já dito, frouxo demais.
E outros podem alegar que não é função do IBGE fazer juízo das declarações de cor, visto que a declaração é livre,m espontânea, e além do mais o objetivo é descrever o perfil de cor da nação, como ela se apresenta, pois só os zoólogos se comprometeriam em dizer oque a população é em termos ecológicos. Ou seja: não é papel do IBGE fazer taxonomia ou identificação genética do perfil étnico da população. Se um sujeito caucasiano quizer se declarar como preto, foda-se.
Nesse caso eu concordo que realmente não é papel do IBGE fazer juízo das declarações, mas observem: é papel do IBGE aperfeiçoar os métodos e as técnicas de pesquisa populacional e demografia, ou seja, já passou o tempo de reconhecer que o sistema de classficação de cor/raça é furado, e dá margens para uma série de sacanagens. Qual é a resistência do IBGE em incorporar denominações mais coerentes com a cultura e com o saber brasileiro? Por que não usar, ao invés de branco, preto pardo e índio, desmembrar o pardo? Assuma-se o termo negro? Ou afrobrasileiro. Ou até caboclo, mulato, cafuzo. O que não pode é um caboclo e um mulato ficarem no memso saco do "pardo". Isso é sacanagem.
Estamos em uma éra de políticas raciais, em que decisões e investimentos são orientados por diversos parâmetros. Entre eles, a etnia. E por isso é também responsabilidade do IBGE aperfeiçoar a classificação e transforma uma mera notificação de cor em um registro representativo da identidade étnica do povo. Caso contrário, qualquer desavisado se sente a vontade pra fazer o que quiser com os dados produzidos por uma instituição tão nobre e estratégica.
Eu sou partidário do sistema americano, onde a etnia e identidade cultural impera sobre a questão da cor. Valoriza-se a origem. Nesse sistema, uma Kim Bassinger é Cherokee, e não se fala mais nisso. Tem de valer o declarado, é claro. Mas não se pode dar brechas para o cara que é branco as quartas, preto as quintas e pardo aos domingos.

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