
Tô eu voltando do trabalho, depois de 10 horas em pé (e quatro dentro de um ônibus pestilento) em pleno sábado de vagabundagem geral, quando decido descer na Praça Sans Peña e levar uns grudes pra casa. Já morto e querendo só um banho e não derrubar o monte de sacolas, resolvi pegar um táxi pra chegar logo. Estava próximo a um ponto de táxi, e não aguardei mais que meia duzia de segundos para que um chegasse. Porém, mais adiante estava um grupo de jovens (é isso mesmo, não tenho outro jeito de identificá-los, pois pasei dos 30, e não adianta curtir Fall Out Boys...). Esses, aparentemente também estavam aguardando um táxi, e estavam até emperequetados pra night. No que o táxi para, me afasto dando a entender que a vez seria deles, que chegaram primeiro, mas elels montam uma coreográfia como quem argumenta concender a vez. Estranho, mas não perco o táxi, pois tava doido de ficar de cuecão e beber Clight de Tangerina no gargalo.
Mal eu entro no táxi, a lider do pelotão de três cumprimenta o motorista "E ai fulano... como está!" com beijinho e tudo, esfregando seu antbraço, e sendo calorosamente correspondida pelo motorista, um senhor de mais de 40, que tem sua idade ainda mais abissal diante daquela menina de aparentes 20 anos (margem de erro: 3 anos. Ou seja, cadeia, conselho tutelar, etc...). Uma caucasiana estilo Pity, de piercing, e inegavelmente bonita. E em um mundo em que um homem deve se envenrgonhar em se sentir sexualmente atraido por meninas de 16 anos, ela seria um conflito certeiro.
Só me incomodava o fato dela perceber o quanto ela mandava bem no visual, e o quanto ela despudoradamente se sentia a vontade pra fazer o bom uso desses recurso. Tenho horror desse tipo de mulher.
Ela é rápida em colocar o assunto, mesmo criando uma atmosfera "cool":
"Pô, fulano, dava pra quebrar um galhão, ai? Podia dá uma carona pra hente ai até a rua tal?...".
Nota: essa tal rua que ela queria, do ponto de táxi, se distanciava umas 8 quadras, oque qualquer novaiorquino faz questão de andar (e as quadras lá são estilo Barra da Tijuca), e oque qualquer proletário caminha, pela revoltante possibilidade de pagar 2 reais de ônibus para percorrer tal distância. A resposta do motorista foi carinhosa, apesar de desfavorável:
"Dá não, fulana, tô rodando agora, nem comecei o esquema aqui... e já tenho outra chamada e tal...."
Derrepentelhamente, a garota faz a proposta, que se eu fosse réptil já teria impedido.
"A fulano, é rapidinho, vai... tamos atrasados... será que não podia nos levar nessa corrida, o moço se incomoda? É rapidinho..."
Ai acontece o mais impressionante. O motorista vira pra mim (sim, sempre que possível vou atrás, mas não é bestice não. Odeio cinto de segurança. Seja gordo e saiba porquê...) e pergunta se eu me incomodaria em dar uma carona ao esquadrão.
Disse apenas "Não me sinto a vontade com a proposta" e pronto. Bem Joaquim Barbosa: seco e impessoal. Deu vontade de dizer "Now carry on, Smithler...", mas ianda não tenho olerite pra isso.
A garota faz cara de surpresa (como quem diz "como ousa dispensar a compania de gente mais jovem e descolada?!?!?") mas disfarça rápido com um "tem nada não", "beleuza"e "valeu". Não me saia da cabeça um episódio de BOONDCKs.
Mal o carro sai o motorista vem com um papo tosco:
"Foi mal ai, meu amigo... (meu amigo é o caralho, seu escroto!!). Mas Aquela menina (aquela vadia, use o termo certo, seu viado!! no caso dela é quase um vocativo!!) de vez em quando está ali, a gente dá uma carona pra ela nas redondezas aqui do bairro, sabe como é (sei não, seu filha da puta!! Sempre me cobraram no final da corrida seu viado corno do caralho!!). Ela sempre faz isso, a hente conhece ela..."
Tive de me conter pra não sai de Londres e parar no Andarai de novo. Mas pensei que em meio ao engarrafamento, meu silêncio seria interpretado como arrogância (minha cara era de nítida raiva), e resolvi entre Londres e Rio, descer até a latitude de Lisboa (que é quase Europa) e resolvi entrar na conversa.
Comecei posicionando os cavalos:
"Ah.. ela smepre faz isso é...?"
"De vez em quando..."
"E é sempre assim por aqui?"
"É... ou então umas corridas pro Grajaú... as vezes..."
"...e ela tem essa camaradagem de vocês?..."
"Quando dá né... Só um companhiro e eu é que fazemos... se tamos saindo pra buscar alguém,
levamos... as vezes, é de cortesia mesmo..."
Deixa eu liberar as torres:
"São sempre essas distâncias curtas, e ela não pode ir a pé ou de ônibus?"
"Claro que pode..."
"Ah... e o senhor tem essa noção...?"
"Claro, ué... mas não custa nada, né..."
"Só de entrar no táxi, me custa quase 5 reais!"
Botei a rainha pra rebolar...
"mas eu sei porque se faz isso pra ela, e não oferece uma carona pruma preta véia no ponto de ônibus: ela é bonitinha né?!... viu o coxão e o peitinho bonito?!..."
"Não! Mas não se trata disso!!"
"então se trata da dcerteza de que no caso dela o trajeto não será subir o morro da Formiga, então..."
"Não é isso, não!! Até porque já vi muito dotô, asim como o senhor, subindo o morro pra pegar pó!"
Tá, perdi uns peões! Nem perdi - dei. Tá no papo:
"Mas porque ela acha que deve tomar um taxi e não pagar por ele, ao invés de andar ou pegar um ônibus?"
"Não sei! não tô na cabeça dela (queria tá em outro lugar, né safadão!!??...). É por camaradagem, a mina é gente fina..."
"Então me explica por que razão ela se sente no direito de contar com tamanha camaradagem de vocês, que numa garoa somem daquele ponto e vão lanchar no Ricos?"
"Ela não conta com isso..."
"Foi por acaso que ela esta ali?"
"Sei lá... ela aparece..."
"Mas ela estava certamente aguardando no ponto, e pelo jeito pelo senhor..."
"É...como eu disse..."
"E o senhor nunca se questionou: "porque essa vadia não vai a pé, porra?..""
"Eu não chamei a menina de vadia..."
"Eu sei, fui eu que implicitei o termo em um argumento falso, fictício... mas oque ela é pro senhor então?"
"Uma garota como outra qualquer..."
"Como aquela ali?" aponto pra uma baranga parda, de propósito. "O senhor daria carona pra ela?"
"não se trata disso..."
"Se trata sim. Se trata dela ser bonitinha, mas ordinária. E o pior: ela sabe disso sabe se aproveitar disso. Sempre terá alguém de quem ela esperará generosidade e complacência."
"Mas que mal há nisso?..."
"Vários, mas posso colocar poucos, pois já estamos no Extra. Primeiro: se um homem fizesse a mesma propósta que ela fez, qual seria a reação mais comum? Eu assumo que am inha seria mandar o babaca tomar no olho do cú e arranjar outro pra espoliar. Pelo que argumentas, o senhor daria a carona do memso jeito?"
Silêncio.
"Por que tanta cortesia pruma mina e não prum camarada, derrepente um trabalhador, um sacrificado.."
"Porra, um cara indo pra balada, e eu vou ficar levando pra ciam e pra baixo!..."
"Áh... mas ela tudo bem! Ela pode ir pra balada, e não vai a pé ou de ônibus! Ou ela tava indo pra escola? Então é completamente correto que ela vá de táxi a custas dos outros..."
"Não é errado ela fazer isso, pelo menos pedir.. não faz mal a ninguém..."
"Claro que não! Oque ela faz é tão normal... mas eu não faria, e o senhor, acredito que não faria, ou faria?"
"Não..."
"E eu sei porque! Porque no meu caso, no seu, viver de vaselina e charme não cola! É vacilação. Mas no caso dela, é uma gracinha né?!? Deve ser por que o senhor acha que ganha alguma coisa com isso..."
"Eu não ganho nada!!..."
"Ganha a fantasia do que poderia ganhar... sabe-se lá o que pode rolar?...nunca se sabe... E ela sabe que inicialmente é isso que ela vende, que ela oferece com todo aquele charme...e assim as cortesias aparecem..."
Nem dei tempo de ter silêncio mais. Tô quase chegando. E o cara já tá puto.
"Não achei legal ter perguntado a mim, como se fosse plausível que eu concordasse com esse tipo de exploração. O senhor pode fazer oque quiser com seu com seu taxi, mas comigo embarcado, se tornou a presunção de que eu aceitaria tamamnha desfaçatez" Não falei assim pomposamente, mas acho que ele entendeu. "Minha mãe não viveu de cortesia, minha mulher não vive de cortesia, e se tivesse uma filha ficaria muito puto d'ela viver dessas cortesias. Elas não vêm de graça. Tem sempre um interesse por trás. E aquela vadia sabia disso! Eu que digo, ela é uma vadia! E sempre vai achar que pode vender a mãe, sem entregar. Dessas cituações já surgem histórias que o senhor sabe mais doque eu. Só sei que não tô no mundo pra dar de comer as piranhas, e nem sustentar vadias. Fica com o troco. É cortesia..."
Um comentário:
Pô Luiz, tu tem que escrever roteiros cara! O cinema nacional está te perdendo. Fiquei imaginando a cena, daria um ótimo curta.
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