quinta-feira, 30 de agosto de 2007

DOGMA X PÓS-MODERNÍSMO

Não há coisa mais antagônica que esses dois termos, pelo que pude verificar nos dicionários e enciclopédias. Vivemos em uma era de desencantamentos com as certezas (o que não se traduz necessariamente com incertezas) e com a consciência das muitas relativizações possíveis, ou melhor colocando, da capacidade do homem relativizar tudo, inclusive aquilo que não deve sê-lo (como a Ética, o crime, a morte, etc.).

Caímos em armadilhas que nós mesmo criamos quando tentamos nos adaptar a um mundo assim, quando tentamos admitir essa condição pós-moderna, e nos deparamos com a presença as vezes intransponível de princípios, idéias e regras das quais não queremos ou não conseguimos abrir mão.

Uma dessas armadilhas é o dogma. Nós ainda convivemos com dogmas, e ainda reproduzimos, dentro da era pós-moderna, dogmas que restringem nossa sobriedade e coerência.

Me impressiona é que, segundo as fontes mais comuns que tratam das origens e histórias do avento do pós-modernismo, este mesmo fenômeno se fragiliza por derrubar conceitos, mas implantar dogmas.

Devo ser honesto em apresentar aqui um conceito que me parece consensual: é um termo da filosofia para identificar um conceito ou uma posição que não admite contestação e nem se permite ou se obriga justificar, já que sua aceitação não se estabelece pela razão (e nem apesar dela). No mundo do saber os dogmas são um constrangimento, um elemento que de tão contraditório e incompatível com a busca da verdade e do conhecimento, passam a impor um impasse: ou a virtude/verdade está no dogma ou fora dele.

O que estranho muito é o fato dos dogmas modernos serem produzidos, na sua maioria, a partir de argumentos oriundos dos discursos de lideranças e representantes dos movimentos sociais contemporâneos. São os grupos feministas, os movimentos gays, os afrorevoltados, os defensores organizados do aborto e outros grupos de mesmo estilo que vêm se valer de argumentos e preceitos que, por pertencerem a estes grupos (seja pela autoria dos termos, seja pela exclusividade do interesse), não precisam serem justificados ou defendidos, pois são legitimados pelo próprio grupo, e não há aceitação de qualquer contestação. Toda contestação ou crítica é rechaçada por duas vias: pro ser impropria, já que geralmente criticar um dogma é um tabu na nossa cultura (criticar politicas reparatórias já é um tabu tão grave quanto falar de masturbação e a virgindade, senão mais) ou se dá pela desqualificação do contra-argumento por conta de seu suposto teor reacionário (ou a ausência de um teor humanísta ou moralmente correto). Isso é infernal, pois cria uma pseudo-dialética, onde um dos argumentadores impede a construção de um sistema de raciocínio coerente, pois fundamenta seus pontos em aspectos intangíveis e defende sua premissa como única aceitável. Além disso, estratégicamente, impõe um contexto de argumentação propositalmente estruturada para restringir as validades lógicas possíveis (mas, para este dogmatico, niconvenientes), e ao mesmo tempo favorecer o "perigo", que consiste em apontar como errôneo ou reprovável idéias, como se nelas estivesse incutido o caráter do interlocutor.

Viagei, eu sei...

Mas não suporto mais a ridícula indignação das pessoas que se apresentam como de "esquerda" , ou "liberais" ou coisas assim, e por isso se sentem não apenas superiores, mas autorizadas a recriminar e punir qualquer um que apresente argumentos que não rezem pela cartilha facistóide desse povo.

Recomendação da semana:

Apesar de estar sendo privado das maravilhosas reuniões do Barra Conexions, tive o prazer de ganhar dois presentes inesperados de dia dos pais. Um foi uma bola de football americano oficial, muito maneira. A outra é a recomendação da semana, o Chateau Clerc Milon - Grand Cru Classe, safra de 1998. Excelente aroma, bem suave, mas o que impressiona é o fato de ser tão cristalino, que sua elegância se multiplica. Fica lindo até em copo de geléia. E seu teor alcoólico é ridículo, o que faz com que, mesmo sendo um Bordeaux de Pauillac, desça bem mesmo nas gargantas mais femininas.

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Barra Conexions

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