Tenho observado o burburinho do parapan. Competição estranha. Uma olimpíada para deficientes físicos que leva a pensar no conceito de "deficiência" (não, eu não serei relativista). Acontece que a diferença de grau de deficiência física entre os atletas é muito grande. Ao ponto de eu me questionar se alguns deles são realmente deficientes. Bom, é claro que são, estabelecemos um padrão de normalidade e tudo segue.
Então eu olho pra Manuela, deficiência auditiva neurosensorial bilateral severa a profunda: surda. Um ano de idade. Bato palmas, ela bate também. Segura as minhas mãos e faz o movimento de palmas. Quando quer algo, grita. Quando está feliz, sorri. Quando se aborrece chora. Dá comida pro cachorro, depois finge que vai dar, puxa o biscoito e ri do bicho. Joga qualquer coisa no chão e olha para mim esperando que eu pegue. Assiste ao DVD da Xuxa sacode os braços e pula sentada. Se faz faz arte e é chamada a atenção, fica quieta com cara de que fez coisa errada.
Pega um telefone de brinquedo leva a orelha e diz: aooooo!
Leva ,depois, o fone aos meus ouvidos.
De vez em quando, distraidamente diz: ba, ba, ma, ma, ma.
Sabemos quando está irritada, feliz, com sono, com fome e para onde quer ir.
Tem um ano de idade e é surda.
Eu teria dificuldades de expressar se fosse surdo, tentaria usar a palavra escrita. Manuela não sabe falar, não ouve e comunica o necessário para uma criança de um ano. Entre os deficientes auditivos as proteses são chamadas de papapá. Então eu fico pensando: óculos é papapá de olho, sapato é papapá de pé, palavra escrita é papapá de quem não consegue se comunicar falando, peruca é papapá de careca, sibutramina é papapá de gordo, roupa é papapá de quem nasce pelado, celular é papapá pra falar com quem está longe.
Ainda não inventaram um papapá para eu entender o mundo.
Mas eu entendo Manuela sem papapá nenhum.
Manuela Calvert Costa, medalha de ouro!
Um comentário:
Adorei! Muito comovente.
Muita generosidade de dividir esse pensamento com a gente. Valeu.
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