Preciso me explicar sobre algumas coisas do texto anterior.
Quando falei da "carência" que se tem no mundo político, não estava sendo Emo, não. Estou convicto de que, nos dias atuais, todos nós fomos formados para atuarmos no processo histórico. E isso não é novo. Até a idade média, o plebeu, o burguês, o cléro, o militar, mesmo o nobre, todos eram seres passivos a vontade divbina, ao processo histórico, que nada mais era senão a vontade Divina. Com o racionalismo e o iluminísmo, ou seja, o advento da fase moderna da humanidade ocidental, vem Hobbes, Descartes, Maquiavel, e uma pá de pensadores apontarem o homem como atuante no seu destino. Dizem que foi ai que a História renasceu, e a pré-história é coisa de duas fases: antes do homem e durante a idade média. Até a idade média, não existia papel histórico para o homem.
A idade moderna aponta que o homem é o construtor da história, é seu condutor. Como isso se dá é que se torna o ponto de competição entre esses pensadores. Uns apontam que somente os eleitos por uma natureza nobre podem conduzir a história; outros evoluem essa idéia, e afirmam que existe um conjunto de classes que organiza essa condução, sendo lógicamente definida para uma classe o papel de protagonista desse processo(a nobreza, a elite, o clero, whatever...), existindo ainda assim uma parcela de atores coadjuvantes e subordinados (o povo, o proletariado, a massa, os parias,...), e não raro existem os que migram (ativamente ou não) entre esses espaços, essas fatias (os pensadores, o militar, vê lá quem mais...). Aos do andar de cima , aos protagonistas, está reservado o papel de conduzir a História, e entre os membros desse primeiro andar é permitido e é legtimo o conflito, a disputa pelo volante e pelas velas da História. Aos de baixo resta o enjôo no tumbeiro, sofrer os saculejos e os impactos provocados pelos condutores. De Erasmo de Rotterdan e Maquiavel até Tommas Hobbes existe um ponto pacífico: o condutor da história está na elite, no segmento privilegiado de uma sociedade, e geralmente acredita-se que esse condutor não é sequer uma classe ou um grupo. Pode ser um homem. Discute-se apenas como configurar ou identificar o sujeito, ou como qualifica-lo, prepará-lo. Em resumo, quem tem papel histórico é a elite.
Mas desde o séc. XV tem gente querendo zonear, como Thomas More, Campanella, Babeuf e outros que começam a sugerir uma sociedade mais igualitária, isto é , a possibilidade de se compartilhar o leme da História como o pessoal da fossa. Ai, abriram o reverso. O mundo moderno é invadido por uma idéia abusrda. A idéia de que os verdadeiros condutores da História, por direito, é o pessoal do andar de baixo, e se esse se organizar, poderá tomar o leme, e desviar o navio da história para Atlântida. Ai vem essa galera do socialismo utópico (Saint-simon, Forieur e tal) que começa a falar do poder das massas, do povo, fala de diferentes estados ou classes sociais, e defende que a disputa pela condução do leme da história tem um novo candidato: o povo. O materialismo de Marx levou essa questão ao máximo, dizendo que existe uma luta histórica de classes, e que o leme deve ser conduzido no final das contas pelo Proletariado. Esses teóricos são testemuinhas ou os primeiros educados pelos frutos da independência americana e a revolução francesa. Para eles, assume-se a idéia de que o povo é que faz a história, não apenas como uma possibilidade, mas como uma missão, um dever, quase um destino. Coisa meio romântica, quase mística. Não que as outras faes não tivessem o teor romântico e místico. E na verdade, as fases anteriores até hoje contaminam pensamentos modernos. Procuramos o divíno e o herói nos estadístas, nos lideres, nos governantes. Procuramos os esclhido. Se ele sai da elite (como Collor) ou do povo (como Lula), a idéia é a mesma. E isso não é só no Brasil, e nem somente no terceiro mundo.
O foco da idéia aqui é mostrar que a partir do séc. XIX surge o espirito (no sentido hegeliano mesmo) de se defender um Estado que garanta igualdade, liberdade e justiça. Direito para todos, e oportunidade para todos. A Inlgaterra saiu na frente na revolução Cromwell (ainda séc. XVII), mas os EUA deram um salto gigantesco no séc XVIII, França vacilou, e até Alemanha chegou no séc. XX preprada para responder essa expectativa: uma nação de oportunidades. Cada um deu seu jeito, seja eliminando a monarquia, enforcando o rei, criando um parlamento, inaugurando uma republica, separando os poderes, sei lá. O chato é que a periferia tentou fazer o mesmo, achando que o processo precederia a estrutura. O Brasil, por exemplo, saiu de colônia para império, inaugurou a república, e até acabou com a escravidão, mas não mudou nada na natureza de sua sociedade.
Descontando essas disparidades, toda nação passou a reproduzir uma cultura moderna, onde se vende o discurso muito bonito do homem como condutor da história, e esse homem pode ser qualquer um que arque o preço desse empreendimento. O mercado permite isso. A política eleitoral permite isso, a democracia, a cultura, a educação, o sanitarísmo permite isso. Benvindos ao auge da era moderna, ao nacionalismo, ao urbanismo. todo homem tem o direito de fazer parte da construção da história.
Todos no século XX passaram a receber uma educação, que romanticamente ou como projeto de sociedade, passaria a reproduzir a idéia de que todo indivíduo pode ser um reformulador da História, qualquer filho de campones pode ser premier; qualquer filho de policial pode se trnar chanceler, é um mundo onde o uindividuo constrói a História. E venham os Hitlers, os Kruchevs, os quaisquer. A única divisão se dá pelo liberalísmo ou pelo intervencionísmo, também disfarçados de capitalismo, socialismo, comunismo, capitalísmo de estado (URSS, Alemanha Nazista?), anarquismo, sei lá. Busca-se a definição de um modelo econômico, um sistema político e de um modelo de estado e um ideal de sociedade. Mas a tônica comum é: o homem, como indivíduo que exerce a cidadania ou briga por ela, é protagonista da história.
Com a possibilidade vem a carência. Somos criados desde o século XX para acreditar que a plenitude de nossa vida somente se dará quando fizermos parte de um momento importante para a História da Humanidade.
Afinal, são tantos exemplos: a luta pelos direitos civís nos EUA; o movimento hyppie; 1968 em Paris; as lutas pela independência na India, na China, nas diversas colônias africanas; Vietnãn e Afeganistão, o Heszboalah, a OLP, etc, etc, etc... São todos eventos traduzidos, de uma forma ou de outra, como eventos onde individuos se organizaram para mudar o mundo. Quem nasceu nos anos 70 como eu ,ainda viu na sua adolescência a queda do muro de Berlin e outros chiliques da história, onde o povo, o coletivo tomou as rédeas da História.
Surge na cabeça de qualquer um nesse período pós grande guerra, a idéia de que o homem relevante é atuante nesses fenõmenos, não pode ser mero espectador. Somos desde pequenos convocados para tomar partido, jurar amores e fidelidades profundas. Independente do lado que você está, é determinado que nesse lado você faça diferença. Hoje não existe um sujeito no mundo que seja urbano, civilizado ou economicamente relevante, que não tenha um enquadramento político, não tenha uma "missão". Não basta escrever um livro, pois esse livro tem de ter o impacto de Gramsci; não basta ter um filho, pois seu filho tem de ser um George W. Bush; e não basta plantar uma arvore, mas desfilar feito o Sting, com um Paiacó do lado, ou jogar um rebocador para abalroar um petroleiro.
Se temos essa necessidade de ser agente ativo da História, no Brasil, onde a coisa ainda é pré-absolutista, o anseio pelo engajamento plítico vive sempre de extremos: da máxima negação ao máximo envolvimento. O exercício de cidadania, no aspecto político principalmente, é bissexto e superficial, e por isso, quando existe algum processo mais cativante, fica difícil resistir. Voc~e qeu sabe que seus pais enfrentaram tanques na Central do Brasil; você que teve seu avô enviado para a Italia na FEB; e você não tem nada disso, mas foi criado para achar muito bonito ser revolucionário, ser hyppie, ser militnte, ser revoltado, ser contextador; todos nós, temos vontade de um dia poder dizer que fizemos algo de importante, que tomamos parte de um momento triunfal ou um marco fundamental para um novo mundo. Não pude desfilar com M.L. King em Alabama; não desembarquei na praia de Omaha, em Dunquerke no dia D; não pude fazer o quinto gol do Brasil na final da copa do México; não sai na capa do Times com Yoko; não estava em Dallas quando Kennedy foi baleado e nem estava no seu gabinete na crise dos misseis; e não, gente! não estava em Berlim para tirar lascas do Muro.
Cresci achando que minha geração não faria nada de relevante. Muito menos um periférico como eu.
Por isso, na primeira oportunidade que encontrei, entrei de cabeça. Votei em 2002 como havia votado em 98 e em 94 e 89: Lula como primeira ou segunda opção. Em 2002, a convicção que fez paulistas elegerem Erundinas, nordestinos elegerem Collor e e o Brasil eleger o Lula tem uma origem: todos exploraram nossa necessidade de mudar o rumo , fazer algo maior, algo transformador. Algo histórico.
É esse o papel do político: explorar, manipular essa necessidade de fazer algo histórico.
Não estou com isso querendo explicar ou justificar o erro. Isso fica pra outra postagem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário