sábado, 25 de agosto de 2007

Alabê: não é "canto de ossanhã"!!!

Confesso que fui meio cabrero, mas extremamente curioso, assistir uma ópera brasileira pela primeira vez em minha vida. Nunca gostei de Vila-Lobos, e as peças de Chico Buarque e Milton Nascimento não passavam de musicais metidos a Brodway (divertidos, geniais, mais sem grandes compromissos cênicos assumidos em uma ópera). Se é pra ver algo precário, até prefiro cantatas ou um recital. E a distinção de musical e ópera me é muito cara, oque intensificou minha apreensão em não resisitir a um anuncio discreto mais singular de "Alabê de Jerusalém". Obra de Altay Velloso, que muitos só vão se lembrar como um dos escravos que foi torturado e teve seus olhos queimados na novela "Sinha Moça". Não!!! Também não esse cara. Muitos vão confundir esse preto com o tio Barnabé, ou com algum "icone" afrobrasileiro da TV. Muitos não, poucos. A maioria vai confundi-lo com muitos outros atores que só fazem papéis residuais, ou na verdade nem vão se ocupar de lembrar de informação tão descartável.
Eu curto musicais e operas, e assumo isso. Não sou expert: minha criação foi dada pelos meus pais via coleção da Abril Cultural. Aqueles discos de 33 rpm de óperas, MPB, etc. Material bem didático esse da Abril Cultural. Me permitiu perde preconceitos e enxergar simplicidade e propósito onde muitos exnxergam afetação. Pode parecer viadagem, mas adoro Fame, Jesus Cristo Superstar, Hair, Sweet Charity, Turandot, Madame Butterfly e La Boheme e ópera doi malandro do mesmo jeito. Sou de uma geração doutrinada pro Leonel Brizola, que aprendeu que asisitir Aida na Quinta da Boa Vista. É uma lembrança cara, um evento bonito e relevante, que qualquer proletário deveria poder apreciar. E com dinheiro público, não se pode colocar no mesmo pote Verdi e Ivete Sangalo no maraca.
Mas minha apreensão em asissitir Alabê não se dá apenas por nunca ter aceitado Carlos Gomes ou vila-Lobos da vida, mas uma coisa ainda pior. O tema é curioso. um mistério mesmo: a história de um africano de de Ifé (antiga capital de Daomé, hoje Benin) que peregrina até Jerusalém na época de Cristo, testemunhando sua história e espalhando sua mensagem na forma de um espirito africano. Uma mensagem cristã carreada por um veículo africano. Em resumo, a obra tinha tudo pra ser uma xaropada de militante dos movimentos afrobrasileiros. Tinha tudo pra ser aquelas escrotices a lá Olodum/Muzenza. E tinha tudo para ser panfletária e cheia daqueles "negros profissionais/oficiais" de sempre. Inclusive alguns medalhões estavam sim, na peça, porém muito discretos, e acima de tudo competentes.

Outra preocupação minha foi: ópera é grande produção em qualquer contexto. Tem de ter no mínimo O time de primeira vóz (dos personagens mais presentes), o time de segunda, o coral, vozes de suporte, o corpo de balé, encenadores, orqueestra, etc. Isso sem a logística, o cenário rico, a indumentária rica, nada pode ser mediocre ou improvisado. não dá pra ser feito nas coxas. É um empreendimento raro pela complexidade (que exige um profissionalismo incomum no mundo artístico brasileiro) e uma diversidade de talentos sincronizados em um único evento. Nós, que achamos carnaval superprodução, não dariamos conta de uma ópera séria.
A ausência de divulgação ou manifestação do evento (com exceção de propaganda paga) nos principais meios de informação sobre entretenimento, me fez pensar que haveria lago de precário no show. Temi em pagar um preço até razoável para casa que estava sendo ocupada. Nenhuma crítica, nenhum comentário. E o pior. Isso me deixou encafifado pra caralho: nenhum selo da Caixa, do BB, da Petrobras, nenhuma logomarca de estatais que estão sistematicamente patrocinando esses eventos de panfletagem. Que é isso?
Com a desculpa de dar um presente para minha mãe, que perdoaria seu filho por qualquer micagem, levei minha família no aniversário da coroa pra assistir o show, mal localizado nesse CityBank Hall (que já foi Claro Hall, Atl Hall, Metropólitan, e dizem que semana que vem será o novo Impecável Maré Mansa Hall...). Caro pra cacete o lugar. Qualquer aguinha vale mais que sangue. Bom... Não fomos pra comer. Fomos pra ver o show, mas nos deparamos com uma ótima infra, e algumas celebridades estavem circulando. Isso me preocupou: óticas do povo morou aqui, saia justas ali, maconheiro militante acolá, um núcleo baiano-afoxé alí, conheço essa galera desde a época do Renasceça. Mas a fauna era mais complexa: tinha também gente das "zelite" artística que não são celebridades, e que são do meu apreço justamente pela sua discrição. E tinha também os seres exóticos, tipo Malhação, Fantástico e Rede Tv. Mas oque mais me chamou a atenção é o fato de grande parte do público não aparentar nem de longe ser formada pela militância SEPPIR, mas possuir um perfil artistico-acadêmico.

E claro, tinha a velharia da meia entrada, que não diferencia o show da noite de um "Abalou Bangu". O negócio é entrar na van e curitr a noitada geriátrica. Essa geriatria ocupava 80% das mesas Vips, onde ficamos. O show, de dois atos, começou pontualmente 20 minutos atrasado, um assombro pra prática vigente no Brasil de atrasar uma hora sem pudores. E começou o transe...


Não tenho condições de escrever ainda sobre a obra em si. Apenas digo que é fantástica, original e extrtemamente rica em competência e engajamento dos atores. Foi mediúnico. Foi uma gira bonita...


Apesar de pequenas falhas técnicas que me revoltaram, que se tornaram imensas pela grandiosidade, singularidade e singeleza do espetáculo. Mas especulo que essas falhas técnicas têm por trás o problema da limitação financeira. Umas duas vezes os microfones falharam ou captaram sons irregulares. Coisa que se evita com um maior número de receptores/roteadores e com a conferência de equipamentos individualizados. Isso requer mais dinheiro. O cenário, único e discreto, também revela a limitação orçamentária, mas geralmente em grandes produções um dos efeitos iatrogênicos desses cenários muito complexos e cheios de efeito é a poluição, sem contar que muitas vezes eles acabam impondo uma dinâmica pouco amistosa para a evolução dos bailarinos e artistas de um modo geral. De qualquer forma, é uma pena o CityBank Hall ter um palco tão pouco propício para grandes peças. Os orixás ficavam com seus elmos, coroas e coberturas colados nos holofotes. Ainda assim a evolução desses "personagens"" foi fantástica.

O espetáculo foi perfeito como presente param inha mãe, pois é uma homenagem vigorosa a mãe, a mulher, a Nossa Senhora, a divina mãe judia, aos orixás femininos e as entidades femininas de todas as culturas. Não é preciso dizer que todo mundo saiu do show desidratado de tanto se emocionar. A velha guarda da meia entrada então... é um tal de bahiana passar mal no meio do desfile...
Mas é inevitável se revoltar em ver uma obra tão majestosa, brasileira, e de mensagem tão rica, ser ignorada, boicotada mesmo, pela midia e pelos orgãos públicos de financiamento da cultura e das artes. A UNIMED foi a única firma que colocou dinheiro na parada (aliás, vou trocar de plano de saúde...). Percebe-se que muito do show é generosidade e dedicação voluntária, quando não total doação, por parte dos artistas envolvidos. E ai eu tenho de reconhecer: o Pitanga só tava no show como chamariz, pra ver se atrai um público mais diversificado através de sua celebridade, mas sua ponta é tão discreta diante da obra (apesar de ótima, e bem executada), que nos faz concluir que sua participação foi uma força que ele deu, pelo jeito de bom grado. Dele, e da Isabela Filardis espero nunca mais tecer nada de mau até os últimos dias da minha vida. Da Isabela nunca falei mal na verdade. Mas o Antonio Pitanga, esse negro profisisonal oportun...(desculpe, gente...) ... bom, ele pedia pra ser xingado, né?!?!? Mas o cinema, o teatro, até sua canastrice (pô, tá difícil... são muitos anos em que esse cara me ensinou a desprezá-lo... desculpa, gente) . Enfim, ... sua arte poderá amenizar suas outras ações... parcialmente... eventually...
Comprei o DVD sobre a história antes do show, e achei muito sem-noção estarem vendendo um box de 120 reais com o DVD, CD , livro e outros produtos... Sem noção sou eu, além de pobre, pois se eu estivesse com os últimos 120 reais do mês, teria comprado o box depois do show sem pestanejar. A ópera daria dinheiro até não aguentar mais na Broadway! As musicas pegam de primeira, o tema é rico pra caramba, e o esforço de sincretísmo faz com que ela possa ser bem recebida em qualquer canto do mundo. Pelo menos em qualquer canto em que a história de Jesus não seja um mistério.
Há mais de 20 anos que o Brasil não exibe algo assim para o mundo. Nem conto com a Ópera do Malandro mais. E é uma obra com uma "afrobrasileiridade" ou "afrobrasileirismo" (foi mal, gerente do blog...) rica, mas não é militante. Sua africanidade se manifesta como uma das hastes do leque que refresca a face de Deus. É muita mistura, mas fica gostoso. E denuncia (sem intenção) como a musica, o cinema e as artes de um modo geral pouco souberam apresentar a cultura e a religião de cunho polimórfico, como a Umbanda, sem fazer merda, criando equívocos e ressaltando pontos negativos ou inexistentes.
Tem um monte de gente que contribuiu pra isso, mas vou logo na infraestrutura: Baden Powell e Vinicius de Moraes. Eles lançaram uma moda doida de falar de macumba na MPB, transpirando uma intimidade tão grande feito um Jorge Amado da bossa-nova (mas sem o preparo do dito cujo), que bagunçou tudo. E é um tal de nego se referir a canto de ossanhã, a ver moran de angola que leva chocalho na canela (alguém já viu!?!?!??! Heim!?!?! Alguma angolana com chocalho?!?! Pois é! Nem na NATGEO ou Discovery...) e palavras que não são yorubá,nem keto, nem nada, mas se tornaram africanas por causa dessa gente. E derrepente não se podia falar de aforcentricidade sem o aval de antropólogos.
Essa negritude brasileira antropológica, cheia de modernos preconceitos, tem de acabar. E acho que isso demanda um amadurecimento cultural bastante elevado, além da disposição de fazer oque o corajoso Altay Velloso fez. Colocou seu braco no mar sem o adesivo do BB, da Caixa ou da Petrobras. Só isso conferiria a obra de Altay uma dignidade rara no Brasil.
Mas isso não é nada. Sua obra é tão bonita que mesmo coberta por estatais, só faria conferir ao financiamento dessas estatais a coerência, a justeza e a dignidade que elas deveriam buscar. E claro que o dinheiro de qualquer Eletrobras que entra no Alabê, irá enriquecer a cultura brasileira. Diferente de um Circo de Soleil.
Obrigado, Altay Velloso. Pelo presente que deste a minha e a todas as mães . Inclusive à mãe do Vencedor!!

Quero ver um dia essa obra sendo consagrada no mundo!! Para o bem do mundo, da humanidade!!!

Alah Akbah!!


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