Não, meu filho. Não sou daqueles comunistas radicais. Sou a favor do livre mercado, do consumismo da primeira semana do mês, e adoro shoppings quando recebo o 13º. Sou social-democrata, defendo princípios republicanos e o sonho de que no futuro todos devam ter o mesmo direito de alcançar seu máximo potencial, contanto que isso não se dê às custas de terceiros. Que qualquer um possa ser Bill Gates, Pelé ou Kennedy.
Mas odeio o Dia dos pais.
E dia das mães, dia das avós, dia dos namorados, ou qualquer dia desses inventado pelo comércio (não é por acaso que têm sempre um domingo fixo). O problema não é ser comercial, mas sim ser mal comercializado. Um dia conversaremos sobre isso (provavelmente quando você ganhar um creme de esfoliação ou um medíocre prestobarba como presente).
Escrevo por conta desse fim de semana “dos pais”. Eu sabia que não poderia faltar, sob pena de ser apontado como pai ausente, deficiente, negligente, insensível e todos esses adjetivos que têm fácil aderência a figura masculina contemporânea. Caguei pras bocas de onde esses adjetivos saem, mas me preocupo com a possibilidade de você acreditar neles, sim. É fácil desmoralizar e desacreditar a figura do pai, do homem e do provedor hoje em dia. Todo mundo está predisposto a condenar e preterir o pai nos dias de hoje. Desculpe a dispersão.
Eu fui para uma cerimônia na sua escola. Fiz malabarismos com meu horário de trabalho para presenciar um conjunto tão triste, tão tosco, que me revoltou. Não só pela mediocridade dos moleques, mas pela reação de seus pais, que achavam aquilo que se apresentava genial (ou estavam relutando contra o evidente desconforto de ver seu filho sendo tão medíocre e cara de pau, disfarçando a vergonha com aplauso tísico e entusiasmo anêmico). Vou refrescar tua memória, pra tu lembrar da escrotice.
Nada foi feito pensando nos pais, mas apenas em cumprir a missão burocrática de fazer algum bagulho no dia dos pais. Isso ficou patente e inegável. A idéia não era homenagear, mas cumprir uma cota de comemorações. Daí tão pouco entusiasmo, tanto stress dos professores e tanta apatia nos alunos. A coisa não foi sincera.
Primeiro vem um rapaz do segundo grau tocar “Imagine” do Lennon, tão mal, mas tão mal, sem ensaio, sem poder culpar sua idade, mas evidenciando o webberianismo dessas comemorações. Fez porque tinha de fazer alguma coisa. Foi uma encomenda do departamento de eventos da escola (DEE). É uma imbecilidade acreditar que o muleque escolheu “Imagine” pensando nos pais. É a musica menos inconveniente que ele sabia tocar? Então vai essa mesmo. É uma musica neutra, que serve pra velório e desquites também.
Depois vem um grupo imitar os “Mamonas Assassinas” (caray,... tem já uns dez anos que esse troço é veio, meu. Constrangedor...) do mesmo jeito tosco, e de novo, nada a ver com o dia dos pais. Em seguida tiraram as fantasias de mamonas e tocaram mais coisinhas caídas. Um horror.
Em seguida veio um grupo de segundo grau mostrar um vídeo-novela de um único capitulo, uma produção chamada “Traição”. Tudo a ver com o dia dos pais mesmo..., engraçado pra cacete (pela tosquice, é óbvio), mas prefiro ver aquilo no youtube. Aliás, tenho certeza que fizeram aquela porcaria pro site, mas como tinham de fazer alguma encomenda do DEE para tal dia “tão especial”, mandaram aquilo mesmo como um press-release. Eles honraram o cinema nacional: som péssimo, edição maluca, baixa qualidade, sem conflito, sem propósito... um lixo. Só faltou selo e dinheiro da ANCINE.
Ainda teve um monte de palhaçada, mas vou encurtar a história registrando apenas esse último show: as danças horrorosas dos anos 50 e 60. Caramba, meu!!! Quê que isso tem a ver com dia dos pais. Fala sério! Que merda, cara! É melhor não fazer nada, meu Deus!, doque aquele lixo! Quando a coordenadora falou no mic “Quem não se lembra os anos 60, heim?!"... Porra! Eu não me lembro! Ninguém se lembra! Só essa coroa mesmo, que fugiu da coluna Prestes! Nasci na década de 70, como mais de 50% dos pais presentes! A outra metade não curtiu essa década de 60, pois no máximo saíram dela com 5 ou 9 anos. Falta de seriedade, sô! No bojo, foi uma falta de consideração e desrespeito. Uma hipocrisia e demagogia que, pelo jeito, se repete todos os anos, em todas as escolas. E note, meu filho, que a tortura começou as 16 horas, e fugimos dela as 19:20 horas, quando você já estava revoltado porque queria pão de queijo e Kappo. Tu tava com fome!
Por conta desse dia, meu querido filho, resolvi te escrever uma coisa: o dia dos pais não é importante pros pais, mas pro resto do mundo que se sente redimido pelas faltas que têm com seus pais nesse dia. Eu espero de você algo melhor quando tu tiver mais velho. E você tem três opções:
Primeiro – Faça algo sincero, uma homenagem do coração, de qualidade, de que eu possa me orgulhar. Invista tempo, dedicação, honestidade e amor, e faça isso tudo transparecer naquilo que fizeres para me homenagear. Não vou me queixar disso.
Segundo – Faça algo tosco como todo mundo faz, demagogo e hipócrita, como foi feito na escola. E se prepare para ouvir coisa muito pior doque aqui escrevo, pois não tenho a menor obrigação de dar continuidade a qualquer hipocrisia dentro de minha casa. Lá você vai ouvir que foi uma merda, que seus colegas são uns merdas, que estou decepcionado com a escola e magoado com tanta falsidade e descaso disfarçado de descontração e frugalidade. Vou deixar bem claro procê que não esperava de você, minha cria, uma atitude de tão pouca consideração. Não vou deixar você na ignorância, te deixar achando que fez grande coisa, ou que foi algo sem colateralidade. Uma homenagem artificial, burocrática e tosca como essa ninguém merece. Vou te infernizar por dias, pra tu aprender a não ser superficial e falso comigo. Seja com a professora, com a namorada, com seus colegas de merda, com o mundo (às vezes é necessário...). Mas comigo, não!! Tu vai ouvir montes, cara... Quero acreditar que aqueles muleques tocam mal, não organizam uma peça ou uma dança direito porque estudam muito e não sobra tempo pra fazer algo decente. (Então não façam).
Terceiro – Não faça porra nenhuma! Tenha plena consciência de que o dia dos pais é um comercialismo tolo, de que eu não faço questão de comemorar essa palhaçada, e estou muito mais preocupado com seu desempenho acadêmico e desenvolvimento moral, espiritual e humano. Caguei pro dia dos pais. Cague também! Tenha coragem de cagar pra essas babaquices do mundo: aniversário, dia dos pais, natal, e todas essas coisas já corrompidas pela política, pelo mercado e pela religião. Tenha coragem de ter ser sóbrio sobre as coisas do mundo. Seja precoce nessa sobriedade, pra não ser um esperneador, mas alguém consciente. Não seja teleguiado nem se deixe ser alienado. Honre-me e homenageie-me todos s dias sendo probo, respeitoso; e sendo merecedor de admiração e respeito também. E cima de tudo, seja culto e inteligente, coisas que não se compra com facilidade. Leia tudo que li e guardo, nem que seja pra identificar algumas merdas. Veja os filmes que vi e guardo, nem que seja pra falar mal deles. Ouça as musicas que coleciono, e me enxergue através dessa minha herança. Talvez assim, se um dia você comprar um disco pra mim, vai saber o que comprar. Se for tocar uma musica pra mim, saberá o que tocar.
Se um dia você resolver fazer alguma performace do dia dos pais, faça algo assim:
Cenário – Quintal de dona Alba, churrasco rolando com o clã e amigos. Contexto: subúrbio carióca, uma semana antes do dia dos pais. Presentes a filha Bete, seu filho Cuca e o pai de Cuca, Didi. Churrasco está terminando. Bete tá evitando o pós-brandial. Didi está termniando sua refeição.
Bete – Cuca, trás lá sua mochila da escola, que eu quero pegar um negócio.
Cuca – Ta mãe...
Didi – E vê se escova o dente em seguida!
Cuca – Tomaqui, mãe... posso ir brincar lá fora depois de escovar os dentes? (já em direção ao banheiro)
Bete – Pode! (falando de soslaio) É até conveniente, que eu quero falar com seu pai....
Didi – Quequié...? (despreocupadamente)
Bete – Eu sei que tu encrenca com o dia dos pais...
Didi – Já começou mal a negociação: eu não encrenco com nada. Só não gosto.
Bete – Então esse ano você não vai de novo na festa da escola?
Didi – Vô vê...
Bete – Não! Eu preciso ter certeza, ora!
Didi – Se estiver trabalhando, claro que não...
Bete – Não pode nem trocar de dia?
Didi- E eu sou mulher, que pode trocar de dia por causa de aniversário do pimpolho, ou por conta de menstruação, ou porque fulaninho ta com febre? Até parece que tu não sabe disso...
Bete – Isso é desculpa tua... outros pais podem ir!
Didi – (com tom professoral) Talvez os pais que não trabalham e atrasam a mensalidade, ou os pais que tem dinheiro de sobra. Eles podem ir sempre. O pai do Cuca não está nesses grupos!
Bete – Mas Didi, você podia pelo menos se esforçar em aparecer na festa. O garoto fica triste quando você não pode ir. Tu sabe que ele sente sua falta.
Didi - Eu sei... eu também adoro busca-lo na escola, ficar mais tempo com ele, mas alguém tem de pagar as contas...
Bete – Mas ser pai não é só pagar contas!
Didi – E nem deixa de ser, minha filha. Seu pai sofreu muito trabalhando de domingo a domingo. Ele nuca foi de ficar de farra na birósca como outros,... que tiveram tempo de ensinar seus filhos a jogar bola. Seu irmão até hoje se recente, tem magoas de seu pai...mó viadagem aolescente ...quero ver o dia que ele for pai também...
Cuca passa creendo entre eles, em direção a rua.
Bete – O Edu é outro caso. Mas o caso deste aqui (apontando pro Didi) é implicância mesmo, mãe! Já teve dia dos pais que ele passou no sofá! Barrigão pra cima, roncando! Nem quis sair...(sacando um envelope da mochila)
Didi – Cuca tinha dois anos! Não existe nem Natal pra ele. E eu tava morgado do plantão, bolas! (Didi se levanta e recolhe e recolhe a mesa)
Bete – Bom... agora ele já ta maior, e vai perguntar porque você não tá lá na festa...(entrega o convite da festa). Cê tem de ir.
Didi – Mas é numa terça feira, duas horas!? Quié isso!? Como vou sair do plantão?!? (encarando a Bete) Me diga se é possível a escola ter essa falta de semancol?! (deixndo tudo na pia e se dirigindo para sua esposa)
Bete (se desviando do olhar inquisitor de Didi,com ares conspiratórios) – Pois é. Eu sabia que não tu não iria... só precisava da confirmação pro plano B...
(segue se um silêncio e um estranhamento de Didi)
Didi – Que seria...?
Bete – Eu perguntei ao seu irmão se ele poderia te representar, mas ele também vai estar trabalhando. Ai pensei se o Edu não poderia ir no teu lugar, te representar. Qui cê acha?
(Didi se afasta de Bete e senta na borda do piso da varanda pro quintal, e se porta reflexivo)
Didi – Sabe o que penso... Sabe que é que eu penso...(pinçando as palvras. Exita, e olha demoradamente para Bete. Se vira calmamente e fala, em direção a platéia). Eu penso que tá ótimo! Tudo bem! Desde que o Edu também pague as mensalidades da escola, tudo bem! Pague também o plano de saúde, o uniforme, os lanches, os cinemas, as festinhas, os presentes de aniversários de todos os coleguinhas! Que ele abra mão de sua vida de playboy e finalmente vire homem, pra assumir a tarefa de ser um modelo, um exemplo pro Cuca. E que ele ensine e mostre ao Cuca coisas importantes nesse mundo. Mostre que e babaquice dia das mães, dos pais, das crianças, Natal, Halloween, tudo isso! (marchando em direção a Bete) O Edu vai ter que mostrar pro Cuca oque é realmente importante na vida. Tomara que o Edu acorde de madrugada pra levar o Cuca na emergência, ou mesmo no banheiro, pra ele não molhar a cama! Taí! O Edu vai na festa, sim! Sabe pra quê? Pra fazer uma homenagem aos pais que não puderam estar lá! Ta bom assim?!
Cuca vem da rua, correndo, e aborda seu pai - Papai, vem jogar comigo?
(Didi dá a mão pro Cuca e eles saindo de cena )
Mas odeio o Dia dos pais.
E dia das mães, dia das avós, dia dos namorados, ou qualquer dia desses inventado pelo comércio (não é por acaso que têm sempre um domingo fixo). O problema não é ser comercial, mas sim ser mal comercializado. Um dia conversaremos sobre isso (provavelmente quando você ganhar um creme de esfoliação ou um medíocre prestobarba como presente).
Escrevo por conta desse fim de semana “dos pais”. Eu sabia que não poderia faltar, sob pena de ser apontado como pai ausente, deficiente, negligente, insensível e todos esses adjetivos que têm fácil aderência a figura masculina contemporânea. Caguei pras bocas de onde esses adjetivos saem, mas me preocupo com a possibilidade de você acreditar neles, sim. É fácil desmoralizar e desacreditar a figura do pai, do homem e do provedor hoje em dia. Todo mundo está predisposto a condenar e preterir o pai nos dias de hoje. Desculpe a dispersão.
Eu fui para uma cerimônia na sua escola. Fiz malabarismos com meu horário de trabalho para presenciar um conjunto tão triste, tão tosco, que me revoltou. Não só pela mediocridade dos moleques, mas pela reação de seus pais, que achavam aquilo que se apresentava genial (ou estavam relutando contra o evidente desconforto de ver seu filho sendo tão medíocre e cara de pau, disfarçando a vergonha com aplauso tísico e entusiasmo anêmico). Vou refrescar tua memória, pra tu lembrar da escrotice.
Nada foi feito pensando nos pais, mas apenas em cumprir a missão burocrática de fazer algum bagulho no dia dos pais. Isso ficou patente e inegável. A idéia não era homenagear, mas cumprir uma cota de comemorações. Daí tão pouco entusiasmo, tanto stress dos professores e tanta apatia nos alunos. A coisa não foi sincera.
Primeiro vem um rapaz do segundo grau tocar “Imagine” do Lennon, tão mal, mas tão mal, sem ensaio, sem poder culpar sua idade, mas evidenciando o webberianismo dessas comemorações. Fez porque tinha de fazer alguma coisa. Foi uma encomenda do departamento de eventos da escola (DEE). É uma imbecilidade acreditar que o muleque escolheu “Imagine” pensando nos pais. É a musica menos inconveniente que ele sabia tocar? Então vai essa mesmo. É uma musica neutra, que serve pra velório e desquites também.
Depois vem um grupo imitar os “Mamonas Assassinas” (caray,... tem já uns dez anos que esse troço é veio, meu. Constrangedor...) do mesmo jeito tosco, e de novo, nada a ver com o dia dos pais. Em seguida tiraram as fantasias de mamonas e tocaram mais coisinhas caídas. Um horror.
Em seguida veio um grupo de segundo grau mostrar um vídeo-novela de um único capitulo, uma produção chamada “Traição”. Tudo a ver com o dia dos pais mesmo..., engraçado pra cacete (pela tosquice, é óbvio), mas prefiro ver aquilo no youtube. Aliás, tenho certeza que fizeram aquela porcaria pro site, mas como tinham de fazer alguma encomenda do DEE para tal dia “tão especial”, mandaram aquilo mesmo como um press-release. Eles honraram o cinema nacional: som péssimo, edição maluca, baixa qualidade, sem conflito, sem propósito... um lixo. Só faltou selo e dinheiro da ANCINE.
Ainda teve um monte de palhaçada, mas vou encurtar a história registrando apenas esse último show: as danças horrorosas dos anos 50 e 60. Caramba, meu!!! Quê que isso tem a ver com dia dos pais. Fala sério! Que merda, cara! É melhor não fazer nada, meu Deus!, doque aquele lixo! Quando a coordenadora falou no mic “Quem não se lembra os anos 60, heim?!"... Porra! Eu não me lembro! Ninguém se lembra! Só essa coroa mesmo, que fugiu da coluna Prestes! Nasci na década de 70, como mais de 50% dos pais presentes! A outra metade não curtiu essa década de 60, pois no máximo saíram dela com 5 ou 9 anos. Falta de seriedade, sô! No bojo, foi uma falta de consideração e desrespeito. Uma hipocrisia e demagogia que, pelo jeito, se repete todos os anos, em todas as escolas. E note, meu filho, que a tortura começou as 16 horas, e fugimos dela as 19:20 horas, quando você já estava revoltado porque queria pão de queijo e Kappo. Tu tava com fome!
Por conta desse dia, meu querido filho, resolvi te escrever uma coisa: o dia dos pais não é importante pros pais, mas pro resto do mundo que se sente redimido pelas faltas que têm com seus pais nesse dia. Eu espero de você algo melhor quando tu tiver mais velho. E você tem três opções:
Primeiro – Faça algo sincero, uma homenagem do coração, de qualidade, de que eu possa me orgulhar. Invista tempo, dedicação, honestidade e amor, e faça isso tudo transparecer naquilo que fizeres para me homenagear. Não vou me queixar disso.
Segundo – Faça algo tosco como todo mundo faz, demagogo e hipócrita, como foi feito na escola. E se prepare para ouvir coisa muito pior doque aqui escrevo, pois não tenho a menor obrigação de dar continuidade a qualquer hipocrisia dentro de minha casa. Lá você vai ouvir que foi uma merda, que seus colegas são uns merdas, que estou decepcionado com a escola e magoado com tanta falsidade e descaso disfarçado de descontração e frugalidade. Vou deixar bem claro procê que não esperava de você, minha cria, uma atitude de tão pouca consideração. Não vou deixar você na ignorância, te deixar achando que fez grande coisa, ou que foi algo sem colateralidade. Uma homenagem artificial, burocrática e tosca como essa ninguém merece. Vou te infernizar por dias, pra tu aprender a não ser superficial e falso comigo. Seja com a professora, com a namorada, com seus colegas de merda, com o mundo (às vezes é necessário...). Mas comigo, não!! Tu vai ouvir montes, cara... Quero acreditar que aqueles muleques tocam mal, não organizam uma peça ou uma dança direito porque estudam muito e não sobra tempo pra fazer algo decente. (Então não façam).
Terceiro – Não faça porra nenhuma! Tenha plena consciência de que o dia dos pais é um comercialismo tolo, de que eu não faço questão de comemorar essa palhaçada, e estou muito mais preocupado com seu desempenho acadêmico e desenvolvimento moral, espiritual e humano. Caguei pro dia dos pais. Cague também! Tenha coragem de cagar pra essas babaquices do mundo: aniversário, dia dos pais, natal, e todas essas coisas já corrompidas pela política, pelo mercado e pela religião. Tenha coragem de ter ser sóbrio sobre as coisas do mundo. Seja precoce nessa sobriedade, pra não ser um esperneador, mas alguém consciente. Não seja teleguiado nem se deixe ser alienado. Honre-me e homenageie-me todos s dias sendo probo, respeitoso; e sendo merecedor de admiração e respeito também. E cima de tudo, seja culto e inteligente, coisas que não se compra com facilidade. Leia tudo que li e guardo, nem que seja pra identificar algumas merdas. Veja os filmes que vi e guardo, nem que seja pra falar mal deles. Ouça as musicas que coleciono, e me enxergue através dessa minha herança. Talvez assim, se um dia você comprar um disco pra mim, vai saber o que comprar. Se for tocar uma musica pra mim, saberá o que tocar.
Se um dia você resolver fazer alguma performace do dia dos pais, faça algo assim:
Cenário – Quintal de dona Alba, churrasco rolando com o clã e amigos. Contexto: subúrbio carióca, uma semana antes do dia dos pais. Presentes a filha Bete, seu filho Cuca e o pai de Cuca, Didi. Churrasco está terminando. Bete tá evitando o pós-brandial. Didi está termniando sua refeição.
Bete – Cuca, trás lá sua mochila da escola, que eu quero pegar um negócio.
Cuca – Ta mãe...
Didi – E vê se escova o dente em seguida!
Cuca – Tomaqui, mãe... posso ir brincar lá fora depois de escovar os dentes? (já em direção ao banheiro)
Bete – Pode! (falando de soslaio) É até conveniente, que eu quero falar com seu pai....
Didi – Quequié...? (despreocupadamente)
Bete – Eu sei que tu encrenca com o dia dos pais...
Didi – Já começou mal a negociação: eu não encrenco com nada. Só não gosto.
Bete – Então esse ano você não vai de novo na festa da escola?
Didi – Vô vê...
Bete – Não! Eu preciso ter certeza, ora!
Didi – Se estiver trabalhando, claro que não...
Bete – Não pode nem trocar de dia?
Didi- E eu sou mulher, que pode trocar de dia por causa de aniversário do pimpolho, ou por conta de menstruação, ou porque fulaninho ta com febre? Até parece que tu não sabe disso...
Bete – Isso é desculpa tua... outros pais podem ir!
Didi – (com tom professoral) Talvez os pais que não trabalham e atrasam a mensalidade, ou os pais que tem dinheiro de sobra. Eles podem ir sempre. O pai do Cuca não está nesses grupos!
Bete – Mas Didi, você podia pelo menos se esforçar em aparecer na festa. O garoto fica triste quando você não pode ir. Tu sabe que ele sente sua falta.
Didi - Eu sei... eu também adoro busca-lo na escola, ficar mais tempo com ele, mas alguém tem de pagar as contas...
Bete – Mas ser pai não é só pagar contas!
Didi – E nem deixa de ser, minha filha. Seu pai sofreu muito trabalhando de domingo a domingo. Ele nuca foi de ficar de farra na birósca como outros,... que tiveram tempo de ensinar seus filhos a jogar bola. Seu irmão até hoje se recente, tem magoas de seu pai...mó viadagem aolescente ...quero ver o dia que ele for pai também...
Cuca passa creendo entre eles, em direção a rua.
Bete – O Edu é outro caso. Mas o caso deste aqui (apontando pro Didi) é implicância mesmo, mãe! Já teve dia dos pais que ele passou no sofá! Barrigão pra cima, roncando! Nem quis sair...(sacando um envelope da mochila)
Didi – Cuca tinha dois anos! Não existe nem Natal pra ele. E eu tava morgado do plantão, bolas! (Didi se levanta e recolhe e recolhe a mesa)
Bete – Bom... agora ele já ta maior, e vai perguntar porque você não tá lá na festa...(entrega o convite da festa). Cê tem de ir.
Didi – Mas é numa terça feira, duas horas!? Quié isso!? Como vou sair do plantão?!? (encarando a Bete) Me diga se é possível a escola ter essa falta de semancol?! (deixndo tudo na pia e se dirigindo para sua esposa)
Bete (se desviando do olhar inquisitor de Didi,com ares conspiratórios) – Pois é. Eu sabia que não tu não iria... só precisava da confirmação pro plano B...
(segue se um silêncio e um estranhamento de Didi)
Didi – Que seria...?
Bete – Eu perguntei ao seu irmão se ele poderia te representar, mas ele também vai estar trabalhando. Ai pensei se o Edu não poderia ir no teu lugar, te representar. Qui cê acha?
(Didi se afasta de Bete e senta na borda do piso da varanda pro quintal, e se porta reflexivo)
Didi – Sabe o que penso... Sabe que é que eu penso...(pinçando as palvras. Exita, e olha demoradamente para Bete. Se vira calmamente e fala, em direção a platéia). Eu penso que tá ótimo! Tudo bem! Desde que o Edu também pague as mensalidades da escola, tudo bem! Pague também o plano de saúde, o uniforme, os lanches, os cinemas, as festinhas, os presentes de aniversários de todos os coleguinhas! Que ele abra mão de sua vida de playboy e finalmente vire homem, pra assumir a tarefa de ser um modelo, um exemplo pro Cuca. E que ele ensine e mostre ao Cuca coisas importantes nesse mundo. Mostre que e babaquice dia das mães, dos pais, das crianças, Natal, Halloween, tudo isso! (marchando em direção a Bete) O Edu vai ter que mostrar pro Cuca oque é realmente importante na vida. Tomara que o Edu acorde de madrugada pra levar o Cuca na emergência, ou mesmo no banheiro, pra ele não molhar a cama! Taí! O Edu vai na festa, sim! Sabe pra quê? Pra fazer uma homenagem aos pais que não puderam estar lá! Ta bom assim?!
Cuca vem da rua, correndo, e aborda seu pai - Papai, vem jogar comigo?
(Didi dá a mão pro Cuca e eles saindo de cena )
Cuca - Papai, oque cê vai querer de prtesente no dia dos pais?
Didi - Que me deixem dormir até tarde. Só isso...
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